domingo, março 29, 2009

Espreitávamos todas as ruas estreitas
e seguíamos pela desordem juvenil
dos bares & esplanadas.
Sentados no banco de trás dessa noite
caías entre mim e outro gajo que estava
a sair-se bem melhor. Eu esperava ainda
uma nota mais inspirada e pus-me
a acender cigarros, depressa, uns
contra os outros, deixando dois no fim
caso entretanto surgisse a oportunidade
de nos afastarmos juntos.

Acho que estava apresentável, penteado
e perfumado num casaco de tweed bege
emprestado e a minha única gravata de malha.
Alguma coisa nesta combinação mereceu-te
um elogio e finalmente pediste o tal cigarro.

Fomos andando até uma música
que nos agradasse aos dois, novamente
sentados, amadurecias-me o olhar e as intenções
ao mesmo tempo que passavas
os dedos pelos lábios como se
evitasses deixar o caminho livre. Adiante
apenas os copos na mesa à sombra
do coração, e, a torcer-se na garganta,
algumas palavras e o seu demorado veneno,
avanços que tardavam em produzir efeito.
Aí e entre tantas quebras em silêncio
julguei perder-te quando te puseste
muito séria e murmuraste: «Diz-me, Diogo,
estamos muito longe de Montmartre?»
Não sei se entendi e não quis falar de Paris,
que mesmo quando lá estive
não me deixou mais que
um significado relativamente vago.

Fui pedindo ajuda e confiando no álcool,
entretanto já soluçavas sobre uns restos de
ternura ou talvez fosse apenas o sono
que tantas vezes facilita a entrega.

Soube descer escadas contigo nos braços,
apanhar um táxi e trazer-te para casa,
oferecer-te a cama da minha irmã
e ficar calmo à medida que apagavas.
Depois de tudo, pareceu-me tão injusto
que te pus dois dedos, sem aviso, lá dentro
e tu nem sonhavas nem acordaste.
Talvez não devesse, mas
apeteceu-me tanto provar dessa inocência.
Ficou-me nos dedos o sabor de uma agonia
menstruada e doce, esgueirando-se
muito para lá desse momento,
indo e voltando da minha velhice e derrota
com uma saudade agredida de loucura.

Então vi-me ao fundo como
a um vulto noutras noites temperadas
de lembranças e derivações imaginárias,
a fazer o caminho de volta, esquecendo
tudo o que não interessa
para chegar à certeza do teu corpo.
E é isso, agora que amanhece, o que me
dói no teu cheiro, o desejo
nos limites do exagero e o sangue
acelerando, para se estragar pouco depois.
Aqui mesmo, a descamar lentamente neste
triste acto de amor – a tua imagem
apertada entre os cinco dedos da mão direita
e a sensação de que tenho a vida toda
pela frente e ela acaba de passar
por mim só para recuperar um instante
em que estiveste mais perto.

Sem comentários: