quinta-feira, março 26, 2009

educação sentimental (I)

dizia-lhe que lhe doía a cabeça antes de ambos começarem a conversar
queixava-se sempre disso,
sei isto porque
às vezes
enquanto estendia a roupa conseguia ouvir-lhe essa queixa que me levou instintivamente a rotulá-lo de fraco: como é do conhecimento geral, nenhum homem sofre de
enxaquecas

mas como dizia, queixava-se frequentemente da cabeça mas nem sei muito bem porquê, uma vez que, quando a morte o surpreendeu não tinha quaisquer objecções a apresentar-lhe em relação à cabeça: a moça com a grande foice censurava-o antes de estômago (sei disso porque da janela o vi cair de borco e fulminado para cima da mesa, no intervalo de dois copos de uísque: só pode ter sido coisa relativa a miudezas digestivas)

à parte isso
como eu dizia
costumávamos sentar-nos no banco do lado de cá da minha varanda, depois do ódio, isto é, depois de eu ter deixado de o odiar e uma vez ou outra chegámos mesmo a conversar, embora a maior parte das vezes as nossas conversas consistissem apenas em trocas recíprocas de palavras que nunca me permitiram muito bem avaliar verdadeiramente o carácter do indivíduo
antes costumava odiá-lo porque

por qualquer motivo - o qual eu nunca cheguei a perceber muito bem qual - ele costumava levantar-se a meio da noite para fumar e deixava as beatas do meu lado da varanda, sei de resto que era ele e a meio da noite porque no final da tarde nunca havia beatas e de manhã estavam lá sempre
hábito detestável, diga-se
mas tolerável

o que de facto era intolerável eram as bananas, que vinham imediatamente a seguir ao cigarro
ele acabava sempre por comer uma banana, deixando a casca como oferenda ou recordação também do lado de cá, da minha varanda
quando aos sábados limpava a varanda
lançava-lhe uns olhares furiosos que ele retribuía com um baixar de olhos relutantemente pudico portanto

apesar de uma morte ser sempre uma grande perda não posso deixar de concluir, e corrijam-me se estiver errado,

o que sobra de ti,
depois de teres sido macaco toda a vida
é a puta da casca

por outro lado, agora que não tenho vizinho acho a coisa um pouco perturbadora (não tendo quaisquer espécies de vizinhos a minha solidão vê-se melhor)

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