POEMA?
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1.
Não conseguia viver sem letras. Por isso, carregou o carro de livros – centenas de livros em seu redor.
2.
Não conseguia viver sem letras. Por isso, andava sempre com folhas rasgadas dos seus livros favoritos no bolso. Sempre que se sentia asfixiado, a ressacar, tirava uma delas do bolso e lia-a. Só então estava em condições de continuar.
3.
Um dia, deixou de necessitar de letras. Começou a dedicar-se a matar. Matava de noite, quando as pessoas dormiam e não sofreriam qualquer dor. Um tiro e já estava. Não sabia por que estava a matar. Mas não conseguia deixar de o fazer.
4.
Amontoava os corpos numa quinta de grandes dimensões que herdara do avô. E a cada dia o amontoado era maior. Eram já muitas dezenas – talvez centenas – de metros de corpos mortos espalhados pelos campos.
5.
Hoje, sente-se eufórico. Não sabe porquê – mas sente-se. Já matou duas pessoas – os dois cadáveres mais à esquerda de todo aquele cemitério ao ar livre.
De repente, resolve morrer. Chegara a sua vez. Cobriu-se de gasolina e acendeu o isqueiro. Ardeu em paz.
6.
Para os bombeiros que viajavam no helicóptero de salvamento, não havia dúvidas: vistos de cima, os corpos espalhados e a arderem pelo campo mais não eram do que versos de um conhecido poema.
Poema: momento imediatamente anterior – e imediatamente posterior – à inspiração; mais do que um instante de inspiração: um poema é um instante de expiação.
sábado, outubro 06, 2007
Separador:
poesia de fora
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