Está-se a tornar quase impossível continuar a escrever e no entanto sinto-me tão insatisfeito com tudo o que já escrevi que não consigo deixar de ceder a novos recomeços. É como se pudesse ainda vir a ser inspirado fatalmente. E no entanto ninguém morre e nota-se que estou próximo do meu fantasma. Ali vem ele, vem acenar-me logo que completo uma primeira frase num texto. Aqui está ele com aquele sorriso meio sincero, meio esforçado, meio apagado, meio irreal, demasiado esperançoso e eu sei que ele já está morto, já não há nada a esperar dele, já não há motivo para que sinta alguma coisa muito menos esperança. A esperança é para os vivos, os que ainda podem morrer com dignidade. A dignidade que falta a um fantasma que depois de ter falhado a vida vem ainda insistir e falha até a morte.
No meio disto tudo o que mais piada tem é que já sei de antemão que esta fúria vai acabar noutra fúria qualquer e um dia eu vou falar das coisas que escrevi desculpando-me como se não tivesse sido eu. E os que escrevem com calma vão continuar por aqui nessa continuidade onde se coleccionam os sentidos das coisas profundas.
No meio disto tudo o que mais piada tem é que já sei de antemão que esta fúria vai acabar noutra fúria qualquer e um dia eu vou falar das coisas que escrevi desculpando-me como se não tivesse sido eu. E os que escrevem com calma vão continuar por aqui nessa continuidade onde se coleccionam os sentidos das coisas profundas.
5 comentários:
Bom, creio que a amizade obriga a quebrar o orgulho; não será condição suficiente mas por certo que é necessária.
Fiquei estarrecido com a tua interpretação do Shortbus, não conseguiste passar além da epiderme 'pornográfica' para discernir um dos filmes mais humanos que já vi nos últimos tempos. Humano sim, feito dos pequenos gestos de que somos capazes, para tocar o outro e dizer-lhe que não está só. Essa humanidade que só o medo e a arrogância nos impedem de alcançar.
Depois lembrei-me: afinal, tal como o del Mar, também eu vomitei aos 19 anos. É só isso, vomitar o Levítico e o Deuteronómio e depois passa. Nem é preciso diabolizá-los, basta contextualizá-los.
Mas nem é disso que te vinha aqui falar. O que te vinha aqui lembrar é um grande amigo e mestre, esse sim, um melhor amigo, creio que já o citaste por aqui uma vez pelo menos, Khalil Gibran:
o Mal não é senão o Bem sedento e esfomeado
é só
fabulosa frase essa!
Bem, não imaginava que ias dar esse destaque. Fui buscar o livro. Tens aí a citação completa para veres se queres modificar a minha tradução ligeira, no original é mais belo e profundo:
Du bien qui est en vous je puis parler, mais non du mal.
Car le mal qu'est-ce sinon le bien torturé par sa propre faim et sa propre soif?
En verité, lorsque le bien est affamé, il cherche sa nourriture même dans les caves obscures, et lorsqu'il est assoiffé, il s'abreuve même d'eaux mortes.
Khalil Gibran, Le Prophète et Le jardin du Prophète, pag. 65, Éditions du Seuil, 1992
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fiquei contente de poder ter sido teu amigo hoje,
vou dormir agora, fica bem
não percebo puto de francês
tradução:
Do bem que existe em vós eu posso falar, mas não do mal.
Porque o que é o mal, senão o bem torturado pela sua própria fome e pela sua própria sede?
Na verdade, quando o bem está esfomeado, ele procura o alimento mesmo nas caves obscuras, e quando está sedento ele bebe mesmo nas águas mortas
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