
esta noite adormeço entre fantasmas
e deixo que seja a minha alma
a acalmar os meus olhos
mas de repente eles fixam um ponto na parede
onde vejo
a tua cara
desenhada por uma mão trémula
ou será que és tu
és tu que tremes
parece-me que os teus lábios mexem
tremes tanto
o que dizes?
que não acreditas
que tens a certeza: é tudo uma mentira!
o quê?
continuas a falar e eu não entendo nada
falas depressa demais e
baixas o rosto
por um momento
o teu cabelo escuro
despista-me na escuridão da parede
regressas
com lágrimas grossíssimas
nesses teus olhos aterrados
parece que a menina em cada olho
luta para não se afogar
e entretanto
a primeira lágrima
é empurrada para fora
e cai
vejo-a descer
aquele ponto brilhante
a tua lágrima pesada
desce
desce
desce
sem parar
não há chão!
e chove o céu
fechaste a janela do teu quarto
fechaste a cara contra a parede
e choras
e tens a dor toda a sair-te para fora
a subir pela parede
a enclausurar-me
já me lembro!
tenho esta noite horrenda
para me despedir de ti
ainda te oiço e vejo
mas cada vez pior
sei porque não consigo adormecer
tenho que esperar que adormeças primeiro
que aceites esta noite e acredites no desgosto
só depois
eu não terei que continuar dividido
entre a tua força que reclama com a nossa sorte
e a mentira
que afinal é verdade:
- esta noite eu morri
.
1 comentário:
É no que dá andares a ver filmes de ficção antes de te deitares: ficas a ver coisas num ponto da parede e baralhadinho de todo sem saberes se é verdade ou mentira que morreste. :P
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