sábado, junho 02, 2007

Esta noite eu morri


esta noite adormeço entre fantasmas
e deixo que seja a minha alma
a acalmar os meus olhos


mas de repente eles fixam um ponto na parede

onde vejo

a tua cara
desenhada por uma mão trémula

ou será que és tu
és tu que tremes

parece-me que os teus lábios mexem

tremes tanto

o que dizes?

que não acreditas
que tens a certeza: é tudo uma mentira!


o quê?

continuas a falar e eu não entendo nada
falas depressa demais e


baixas o rosto

por um momento
o teu cabelo escuro
despista-me na escuridão da parede



regressas

com lágrimas grossíssimas
nesses teus olhos aterrados
parece que a menina em cada olho
luta para não se afogar

e entretanto
a primeira lágrima
é empurrada para fora

e cai

vejo-a descer

aquele ponto brilhante
a tua lágrima pesada
desce
desce
desce


sem parar

não há chão!

e chove o céu

fechaste a janela do teu quarto
fechaste a cara contra a parede

e choras

e tens a dor toda a sair-te para fora
a subir pela parede

a enclausurar-me

já me lembro!









tenho esta noite horrenda
para me despedir de ti

ainda te oiço e vejo
mas cada vez pior

sei porque não consigo adormecer

tenho que esperar que adormeças primeiro
que aceites esta noite e acredites no desgosto

só depois
eu não terei que continuar dividido
entre a tua força que reclama com a nossa sorte
e a mentira


que afinal é verdade:


- esta noite eu morri




.

1 comentário:

elouise disse...

É no que dá andares a ver filmes de ficção antes de te deitares: ficas a ver coisas num ponto da parede e baralhadinho de todo sem saberes se é verdade ou mentira que morreste. :P