terça-feira, abril 03, 2007

A estrada poética

Há coisas muito curiosas na forma como dentro da literatura uma obra alcança a fama e é considerada uma grande obra ou um bom trabalho. Neste artigo brasileiro fiquei a saber que dois poemas que circulam nalguma imprensa e dão voltas e voltas na internet atribuídos a Jorge Luís Borges e Gabriel García Márquez afinal não são destes autores, são palavras pobres e vulgares, o que não as impediu de chegarem a muito gente. Bastou a assinatura certa. Isso devia fazer-nos pensar.
No último ano tenho lido imensa poesia portuguesa e tenho-me deparado com diversos autores que escrevem na forma de versos um número sem fim de banalidades. Cheguei mesmo a dar-vos como exemplo a poesia de uma autora portuguesa publicada (Encandescente que é autora do blogue Eroticidades) que apesar de saber usar o português não consegue nunca escrever poesia. Li vários dos seus supostos poemas e um atrás do outro são insistências disfarçadas como poesia. Aliás é muito raro encontrar um autor que tenha escrito mais do que uns poucos bons poemas, mesmo os melhores poetas têm poemas que apesar de serem bons não são especiais. O interessante é verificar que a poesia está rodeada de um clima de erudição ao qual as pessoas tantas vezes aderem sem nem sequer conseguirem fazer destrinças essenciais para se apreciar entre um bom e um mau verso, um poema notável e um poema vulgar. A verdade é que à medida que cada vez mais e mais pessoas escrevem há um número cada vez maior de pessoas que se aventuram na poesia e se por um lado a título de promessa e exercício isso é óptimo para a poesia acontece também que o objectivo deve ser encontrar bons poemas e não bons poetas. Nos últimos tempos tenho lido em fnacs e outras livrarias, livros de poesia de escritores vivos que têm para ali muito papel e pouca invenção... Não posso dizer que haja falta de engenho mas a inspiração falta muitas vezes. Às vezes leio alguns poetas meus contemporâneos e sinto que estou perante engenheiros, pessoas que estudam os truques, aprenderam as dicas e vão desenhando um poema que é como um projecto...
Não quero falar de mim, é-me difícil. Escrevo poemas e quero pôr um ponto final a seguir a ter dito isto - mas é verdade que não me sinto um poeta e é ainda mais verdade que estou muito inseguro de já ter alguma vez escrito o poema que eu queria escrever. Talvez.
O importante nas publicações de poesia actuais seria fazer uma recolha do melhor, tipo compilação, e não tanto conseguir publicar já aquilo que os poetas conseguem escrever. A poesia, como o vinho e outras coisas que são boas, precisa de tempo mas mais do que tempo precisa da nossa idade e experiência para a sabermos provar devidamente, apreciá-la e bebê-la nesta refeição.
Eu acho que se devia publicar muito mais poesia, adorava que a poesia fosse um estilo mais popular... mas não é. E enquanto os poetas não conseguirem chamar a atenção de mais pessoas o esforço deve ser sobretudo esse, porque há poesia maravilhosa mas num livro com 30 poemas não basta que dois sejam óptimos e outros três sejam muito bons, é preciso é encantá-los, fazê-los comerem o papel e chorar, chorar por mais.
Eu quase só conheço poesia portuguesa e tenho na cabeça uma lista quase fixa de poetas portugueses sensacionais, a maioria deles ainda vivos, no entanto eu demorei muito tempo a chegar a esta lista e digo-vos que foi difícil porque há por aí muito verso que nos despista e a poesia está-se a tornar uma estrada complicada.

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