segunda-feira, setembro 04, 2006

Prisioneiros


Na mesma cela encontrámos os dois. Um altamente motivado baixinho mas largo de estrutura e super enérgico, despreocupado, sempre com uma coisa acertada e oportuna para desapertar quando se podia esperar alguma coisa interessante, era um dador, e o que se ria com aquele homem era impressionante, ele próprio se ria e acompanhava o seu embalo como se houvessem dois dentro de si, ele e um amigo cheio de piada... O outro era mais recatado, tinha uns olhos que pareciam sempre cansados e apertados por umas sobrancelhas grossas que lhe davam um ar estranho, era meio lento e a única pessoa com quem se soltava era com esse seu companheiro mas mesmo isso foi um crescimento, uma relação construída aos poucos...
O primeiro chamava-se Jaules, o seu nome verdadeiro não se sabia, por ali os nomes verdadeiros não interessavam muito, ele estava ali há mais de nove anos por ter assassinado um colega de trabalho que não respeitava a ética de trabalho e estava disposto a tudo para subir na vida... Talvez o Jaules lhe tenha feito um grande favor e o tenha feito subir na vida o mais que podia enviando-o para o céu mas nas suas preces diárias o próprio pedia a Deus entre uma série de bens um mal - "que o idiota não consiga passar pelas portas de cristal"...
O companheiro de Jaules estava na prisão há menos tempo, uns cinco anos, estava a cumprir uma estadia por tráfico de droga mas a sua pena tinha sido bastante alijeirada quando decidiu cooperar com a polícia e entregar os seus companheiros... Era um bufo e os bufos não se costumam dar bem na prisão... Passou um mau bocado mas teve a sorte de ficar na mesma cela que o popular Jaules. Chamava-se Godo, o seu nome verdadeiro era infeliz, Godofredo... Não tinha amigos ali para além do seu companheiro de cela.
Jaules não respeitava ninguém e ao mesmo tempo respeitava todos, sabia onde estava metido e sabia que era diferente da maioria daquelas pessoas - ele tinha morto um companheiro de trabalho a sangue quente, irritado, sentira-se revoltado com mais uma atitude desprezível... Dirigiu-se a ele e iniciou mais uma discussão, estava tão irritado, puxou de uma série de situações e disse-lhe mais uma vez que não lhe admitia aquilo, avisou-o e outro não respondia nem se envergonhava, riu-se e olhou para o lado... Bastou isto naquele dia, era uma gota a mais do que Jaules podia suportar naquele momento, pegou no pisador de papéis e atingiu-o com uma pancada forte e seca... O outro perdeu o sorriso devagarinho, olhou-o com os olhos mais abertos e conscientes do que de costume e estatelou-se contra a secretária, o corpo ficou desarrumado no chão e a cabeça um pouco elevada encostada contra o armário de arquivos... O sangue imenso corria... Ninguém deu um berro e estavam mais quatro pessoas no escritório essa tarde, três mulheres e mais um homem... Seguiam a discussão de perto e sentiam cada uma das palavras de Jaules, diziam-nas na cabeça e só não o acompanhavam porque lhe reconheciam a capacidade de ser bem mais duro... Quando o outro se riu e olhou para o lado desconsiderando Jaules estava a desconsiderá-los a todos e também eles pegavam aquele pisador para o abaterem sobre a cabeça daquele ascor...
Na prisão Jaules não se envolvia em esquemas e respeitou desde início a organização entre os prisioneiros, era uma questão de saber quem é quem e fazer por agradar a pessoa certa no momento certo... E isso era-lhe fácil, sempre agradara as pessoas à sua volta e ali na prisão as coisas não eram diferentes...
Tinha uma pena de dezasseis anos para cumprir e Godo estava no seu último mês.
Perguntámos a Godo como se sentia sabendo que estava a cumprir os últimos dias da sua pena e ele hesitou muito antes de responder, depois disse-nos que não sabia, que sinceramente não sabia... Queríamos tentar puxar por ele mas ele parecia envergonhado ou pouco à vontade por isso virámo-nos para Jaules... E foi ele que nos disse que lá fora o Godo não era mais livre do que ali... Estava metido com gente como aquela da prisão, gente feia, muitas vezes sem escrúpulos, ladrões, assassinos, violadores, pedófilos, e os eternos inocentes... A corja do costume... Godo não tinha a capacidade de se dedicar sériamente a uma actividade profissional legítima e por isso acabou por se agarrar a uma solução pouco séria e sem nenhumas garantias, entretanto as drogas arrastavam-no para uma situação cada vez pior e quando foi preso aquilo terá sido um alívio... A sua família não o queria, era um drogado e não tinha amigos, as pessoas com quem ainda se relacionavam eram pessoas daquele mundo e nunca fariam nada por ele... No fundo a prisão voltou a dar-lhe algo que tinha perdido há muito, uma vida com paredes, alguma segurança e depois um amigo... É estranho que a prisão possa ser uma segurança mas é, uma previsibilidade, um lugar onde o tempo não interessa e onde as ocupações aproveitam a pessoa... Fez-lhe bem. Livrou-se do vício, aprendeu a desenhar muito bem, já tinha um bom portfólio e algum feedback lá de fora... A sua família visitava-o ali e achavam que estava melhor...
Voltar lá para fora, estar novamente livre era uma ideia assustadora... Algumas pessoas gostam da liberdade porque sabem governar a sua própria vida mas muitas pessoas, talvez mais ainda não sabem o que fazer com a liberdade e a não ser que se envolvam em sistemas ordenados que obriguem as suas vidas a uma ordem acabam mesmo por se auto-destruírem... Foi o que aconteceu a Godo e voltaria a acontecer mesmo depois da prisão e de tudo o que tinha aprendido... As pessoas parecem não perceber que na vida tudo se aprende, e tudo se desaprende da mesma forma como se aprendeu (talvez ainda mais depressa)...
Jaules podia sair dali a qualquer momento e dar-se bem lá fora como se dava lá dentro mas Godo precisaria sempre de depender de alguém... A sua fraqueza era não poder confiar em si mesmo e por estar sempre dependente de alguém para o orientar a prisão era a sua única chance de viver uma vida com aquilo que todas as vidas precisam, ordem.

Sem comentários: