quinta-feira, outubro 22, 2026


Fabricar o eterno é fácil, diz Lizalde
“fazer deuses em série, arte de crianças”,
difícil é permanecer fiel a isto, erguer-se 
e a cada dia contemplar a miséria de tudo
quanto amamos, a feérica luz
que fiam entre si os condenados.
É aqui que se acumula a espuma da vida
entre últimos dedos, que molhamos
na viva ondulação de um copo ou
do que nos entontece com a sua grandeza,
os níveis do que mal abrangemos
e da realidade só nos deixa esta
trémula graça. Tantos anos, e depois 
séculos num dia só, todo o pó
e as cinzas arquivados por capítulos,
tamanho esforço para sustentar essa lâmpada 
de âmbar, o quarto onde outros vão caindo,
onde reservo essas provisões, esse vinho
que dá para tirarmos o caroço aos anjos,
aproveitarmos o choque da nula gravidade
e a vertigem que logo dá razão à carne,
ou a sombra de que por fim se embriagam.
Vê este a recompor-se da queda,
aturdido agora pelas primeiras sensações
mortais, todo beliscado, pasmando
com as nódoas, as pinceladas antes tão 
firmes já esborratadas, já ergue os punhos
em breve também irá entregar-se às paixões
mais pútridas, a traições, e será um leitor
atento, venal, abrindo as carótidas 
dedicando-se à tradução
junto de bestas, polígrafos, poetas.
E perto de uma canção suficiente
na sua nudez aprenderá como o corpo
sabe “resistir ao seu próprio sangue”.
A dor impõe a sua luz fraca mas
persistente, abre-se contra o texto, 
indo além. Variamos assim
entre as espécies, deslocamos peças 
na intimidade do mundo, e de noite
uns sonhos gastos visitam-nos,
restos de vida, clamores de bêbados
que não encontram o caminho de volta.
Olhamos em volta, e somos o quê a tudo
isto? Tribos de um só, canários quase
extintos, salpicando tudo de tinta,
de um discurso compilado em várias
línguas, e de raros sons seguidos, vorazes
alucinados diante desse pulso próximo 
e contra o qual se apaga o nosso eco.


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