Uma história do roubo, se me perguntarem,
é isto, das paixões solitárias, e canções
cheias de piolhos, buracos, sinais de rádio
vindos do espaço, os restos de linha
que usam os insectos ao coser
os dois lados, da intimidade
ao eco mais distante, ou apenas
a urgência de quem te pede um cigarro,
rouba uma expressão. E dos sonhos
já acordados resta um ritmo,
quando a luz ainda nos parece
pouco natural, quando ainda está em nós
o gozo dos miúdos ao brincarem
com os faunos para logo depois
os apedrejarem. Ficas ali,
o corpo debruçado, atento, agreste
sentes-te cada vez menos consistente,
e ao sabor do real sucedem essas visões
incríveis, o incêndio e a tremenda noite,
as estrelas vertidas, nomes lidos
ao contrário, o tumulto de alguma
lembrança entre as células a tentar
libertar de novo a velha energia
esse talento dos estranhos
o jeito que têm nas esquinas
capazes de aguentar as suas contradições,
de experimentar o gosto das palavras
de as dizer para que ressoem ainda
tantos anos depois, o hábil improviso
como se aproveitam do futuro dos sentidos
partes esquecidas das cores, das ruas
beliscadas por ruídos vindos de outros lados,
e como tudo é mais tarde levado
até à nossa cama, onde retomamos as
linhas, os detalhes, a curva preciosa,
todos nervosamente decorados,
o gosto de olhar, ver, ser visto, tudo cheio
de intenção, de intervalo, a rimar
como antigamente, cercando a hora
do nosso fim, e a partir daí
o voo desse estado voluntário,
tudo coeso na inevitável beleza de um
murmúrio que mal se escuta mas sugere
que a língua pela qual ansiamos está perto,
escondida, nesse saber surpreso,
na equação resolvida tantas vezes
para resgatar o corpo que não se repetiu
mas se misturou no sangue e no modo
como a luz se desfaz e repete, escondido
na gaveta do fundo, na floresta azul
nos quartos dos navios ardidos, na vida
selvagem desses ecos e reflexos
que nenhuma distância irá recolher.
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