Primeiro, é claro, temos medo,
felizmente não faltam a este mundo
substâncias variações partículas dançantes
ritmos revirando as formas, e que atravessam
os séculos o cosmos em vagas, e algum
impulso que mesmo nas cinzas luta, uma réstia
de calor reza e logo te desfazes agarrado
à luz, cada coisa se desembaraça
dos seus limites, podes assim saborear
a vastidão, dar-lhe indicações
rever essas noções selvagens
como Gauguin ao forçar as cores
a andarem despidas enquanto se diz
que espalhava a sífilis pelas nativas
em tantas daquelas ilhas nos mares do sul,
e alguém acrescentou uma nota, à margem
fazendo saber como isto devia repugnar-nos,
o desejo, o impudor terrível dos que
se foram, e levaram com eles esse anseio
canibal, ele levou ainda cem metros de tela
os tubos de tinta, uma espingarda para caçar
o que viria a comer, dois bandolins, uma trompa,
um monte de partituras (Schubert, Schumann)
e postais, reproduções de Degas, Dürer, Rafael
e Manet, imagens de bailarinas javanesas
e dos frisos do templo de Borobudur
e nós nem as malas fizemos, somos só
joelhos, e as mil desculpas, pardos, gastos,
nunca vimos uma dessas flores ofensivas
que por cima de toda a sua exuberância
arrota os restos de uma abelha, mas se
alguém aí ao fundo quiser apontar esta
ou aquela imprecisão, em vez de dar
mais à língua, antes prefiro
agitar o frasco de vidro onde nos deixou
quatro dentes, este chocalho e riso,
aquele olhar sobre o ombro, tocando
um pequeno piano em Paris sem calças
sem um pingo de vergonha, talvez
porque já contava levá-la também
para diluir o excesso daquelas cores.
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