Alguém se limpou a estas cortinas,
amarelecidas, com uns pássaros em tons
desgostosos, calados há décadas
deixam nos dedos a impressão de cinzas
húmidas. Antes de nos mudarmos,
alguém se referiu a este lugar
como um pardieiro, mas ficava em conta
e na verdade foi o meu sustento,
o espaço onde me foi possível isto,
o baloiço interior, um resto de consciência,
o óxido, a monotonia, o gozo dos momentos
finais, dispersos, reunindo o que não importa
e por isso nos salva. Acabamos por apreciar
o sabor da ferrugem, e comove-nos
quando já não nos apetece não somos
capazes simplesmente olhar, ouvir
os que dançam, os que contam estórias
dando tempo para que a maré desça
e se possa ler em detalhe
as descrições de antigos desastres,
os que prosseguem muito para lá
do que outros consideram ridículo,
apertam nos braços essa música lenta
que lhes serve mais para coçar o vazio
de tudo o que em tempos
julgaram que lhes fora prometido.
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