quarta-feira, março 20, 2024


Às vezes oiço uma voz do outro lado da casa,
talvez o vento trancado ou alguma
lembrança, um astro derramado
entre os lençóis amargos, no jarro de leite,
meço o intervalo entre as cortinas,
os faróis que entram pelo quarto 
e reviram tudo, arrancando as coisas
à sua semelhança, como pela raiz,
e acho sempre o infinito
no que resta quebrado, na sombra delirante
de uma vida modesta, depois perco-me,
preciso de alguém que o veja por mim,
e aguente aquela indecisão toda.
Se a beleza deixou de me magoar,
talvez seja porque me destruiu em tempos,
devo ser um monstro para ter tanta
noite diante de mim, habituado às formas
do desejo que se vão propagando
e que abalam os quartos até
só as podermos descrever como crimes.
Perdemos o rosto para impressões excessivas,
as luzes ao fundo de cidades absurdas
escurecendo-nos a carne, e uma cicatriz
atravessa tudo isto. Cada imagem verdadeira 
mostra-se à altura de um incêndio,
sopra as cinzas ao longo do idioma,
a terra e as árvores estremecem,
e é preciso que tudo se misture de novo
para que alguma coisa se entenda.
Falamos a uns poucos num denso cultivo
das madrugadas, ao ritmo de antigas pragas,
a ordem dura um instante e logo o caos
rejubila, e nós que fazemos?
Cantamos como pequenos pássaros
nos intervalos de um vento que nos devora.


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