quarta-feira, março 20, 2019

UM LANÇAMENTO DE LIVRO FEITO À REVELIA DO EDITOR




E amanhã? As canas estão contadas, faltando o fogo não se poupou no artifício, e garantem-nos que vai ser lindo. É o dia para nos empanzinarmos de rimas, vir mostrar o que, no resto do ano, e até por decoro, a malta esconde... Dia mundial da poesia, ah pois, até fizemos as unhas, e estamos a contar com o sol, aí, refastelado, a chupar sumos de palhinha. Já contávamos com piqueniques e recitais, cada qual com cada um buscando o poente que lhes convenha, e, em chegando a noite, tudo a correr para casa, a família toda a ler, já não Cesário, já não porque hoje o burro tem o cu voltado para o mar, prefere Nuno Júdice, assim, estarão todos em casa a ler-lhe a obra completa, a ver se a morte se esquece deles. Nós estávamos já contando com tudo isso, e irmos dumas cerimónias para as outras, não perder nada, até fazermos boa figura entre o coro de bocejos, mas eis que, de um ângulo mortíssimo, nos apanham desprevenidos: foi o Instituto Cervantes, organização de beneficência que espalha puetas de carreira e espanhóis pelo mundo, essa casa que de bom grado trocaríamos por um tasco a-espanholado, de um gajo de Olivença, que ali servisse tapas e desse refugio a sevilhanas foragidas, chicas saltando para cima das mesas do soalho sujo dos sonhos que vomitassem os bêbados no fim da noite, e a salvo das correntes desse mar grosso, sacudissem a saia, tocando castanholas... Então e como foi que a rataria do Cervantes nos veio ao queijo...? Bem, acabam de comunicar-nos (um tal de Gonzalo Del Puerto) que, numa parceria com a Casa da América Latina (outra digníssima instituição dirigida por Madame Júdice e que mais nos valia se se reformasse, senão em tasco ou cantina, talvez em casa de serviços consonantes com o estatuto delirante e libidinal das literaturas lá mais para baixo), e com o CCB, esse espaventoso antro para o género de programa cultural de se encher a gaiola de cucos, decidiram que, no fim-de-semana a seguir, dia 23, às 19h, e por ocasião do dia mundial da poesia, vão lançar a antologia “A Vida em Chamas”, de Luis Alberto de Cuenca. Então e que mal há nisso? Um detalhe: é que a obra foi publicada por nós. Editamos nós, apresentam-na eles. E o à-vontade é tal que nos comunicam a coisa como facto consumado, em cima da hora. E se o fazem é porque querem livros (dá cá uns exemplares) para oferecer a jornalistas, e que talvez se possa dar um jeito de pôr alguns à venda no CCB. CCB que, todo o dia mundial da poesia, tem lá umas mesas a vender o que parece uma amostra regional, cada ano os mesmos, dessas mesmas editoras, que nem é bem poesia o que editam, antes servem chá. Isto lembrou-me da vez em que a Vitor Silva Tavares chegou notícia, em 2013, de que tinha ganhado um prémio, e esse era mesmo especial, prémio carreira. E era dado pela congregação dos anjos que gostam de mijar e jogar uma cartada a horas trágicas na Madragoa? Não. Então, dava-o quem? Pois, era a revista Ler, mais os consultores editoriais Booktailors. Como toda a gente sabe, gente do melhor que há, amantes seríssimos dos livros (infelizmente gostam é um pouquito mais do negócio do que do ócio), mas é gente que calça maravilhosamente os saltos altos, e quanto a prestígio, têm-no para dar e vender. Nesse caso, o editor ainda teve o especial gozo de anunciar que declinava a honraria, não a recebia, coisa fácil de prever, de resto, não sendo o género de atenção que o comovesse como a outros. Não o aquecia nem arrefecia, e certamente também dispensava ter algum pinchavelho à laia de troféu a atravancar a chafarica... Mas o aspecto que aqui mais nos importa era a nota em que VST informava de que se tratava de um prémio atribuído à revelia. Tanta é a fominha de uns que, já se sabe, quem lança estas campanhas nem pensa uma quanto mais duas vezes, e para espevitar a rotina técnica do elogio-mútuo, também não supõem que haja uns que foram a correr encher-se de alergias ao tipo de gracinhas e medalhas com que esta malta monta o carnaval do beletrismo, praga que provoca o espirro a quem realmente anda nisto pelos livros e até dispensava o ambiente popular e as festividades consagratórias. VST nem contactado foi. Toma lá ó magrizela. Lembrei-me do episódio, que é bem giro, muito mais digno de se contar aos netos do que esta bandalheira de virem uns institutos assenhorear-se de uma edição com a qual não tiverem nada a ver, para a qual até contribuíram zero, manifestando, como é de regra, interesse nenhum por esta como por qualquer outra das obras antologiadas e traduzidas de autores espanhóis. E já são algumas. Estamos, assim, não apenas sujeitos a aturar a azucrinante vizinhança, ficamos a saber que agora estamos também sujeitos a editar livros para vê-los apresentados por outros, e à nossa revelia. O autor, que com toda a probabilidade, está alheado de tudo isto, há-de ser trazido de Madrid, e a apresentação lá se fará, entre outras mil merdices, mas o melhor é que se apresenta uma antologia sem nem um a aviso ao antologiador e tradutor: Miguel Filipe Mochila. Vai-se lá saber, talvez o homem até tivesse interesse em estar lá, dizer alguma coisinha sobre o trabalho que fez, mas não é importante, consideram os institutos. É outro que tem mais é que ficar agradecido. Deve ser isto um modelo novo de defesa da cultura até ao limite, à bruta, até porque a crise e a época estão a exigir medidas drásticas, e se és um desses que têm a veleidade de vir dizer que não comes deste pão, é deixar que enrijeça e atiram-to às fuças, até se te partirem os dentes.

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