terça-feira, janeiro 13, 2015

LIBERDADE EXPRESSIVA



I

Liberdade de expressão, menos pôr a ridículo a religião, o que tem como consequência atentar contra a liberdade espiritual do próximo.
A sátira não deve, não pode ser aplicada à religião, ao contrário do que proclama o autor de Os Versículos Satânicos, verdadeiro lacaio do diabo não só para os Muçulmanos, como para todos os homens religiosos do mundo inteiro.
O que hoje aconteceu em Paris é mais um exemplo da liberdade sem autoridade e da autoridade sem liberdade, e da falsa e hipócrita harmonia que resulta da conciliação da liberdade com direito à blasfémia, ferindo profundamente os sentimentos mais íntimos e sagrados de milhões de crentes.
Ao persistir nesta teimosia de constantemente caricaturar e atacar o Profeta, que, na perspectiva dos seus fiéis é inatacável e associado à mais respeitosa veneração, o que hoje aconteceu em Paris, de outras maneiras, ou idênticas, precisas e cirúrgicas, vai acontecer por toda a Europa e América do Norte, até que o Ocidente se civilize e saiba usar a liberdade com autoridade, não permitindo insultar e satirizar qualquer religião, ou os seus Profetas.
Depara-se-nos, efectivamente, uma guerra (terrorismo contra terrorismo), que o Ocidente não quer perder, nem tão-pouco, o que é mais grave, quer ver.
O seu orgulho de ex-colonizador, escravizador e explorador de muitos povos africanos e asiáticos, ainda se mantém arrogantemente de pé. Chegou a altura de cair de joelhos e pedir perdão.
Os vencedores desta guerra, temos a certeza, serão clementes, imitadores do Profeta que, ao entrar vitorioso em Meca, a todos quantos esperavam a morte, deu a vida.

§

O que afirmamos aqui não significa a nossa concordância com a trágica e sangrenta realidade desta guerra, mas apenas dolorosa compreensão, e explicação da sua inevitável existência, desenvolvimento e desejável epílogo de paz.
Não há liberdade sem autoridade, nem autoridade sem liberdade.

II

Enquanto, no meu quarto,
do alto duma estante, um pombo
branco me olha
pronto a levantar vôo
e a pousar no meu ombro,
dois guerreiros
com corações de pedra
erguem suas mãos ao Paraíso
com orações e metralhadora.

Querem morrer como mártyres
porque a sua fé
friamente medonha
não lhes permite uma falha
nesta guerra de cálculo e espada.
Entretanto, o meu pombo branco
pousa-me no ombro.

Ligo a rádio pra ouvir as notícias.
Dois guerreiros
desafiam um país inteiro
(com a sua polícia e exército)
que simboliza, nesta circunstância,
todo o Ocidente produtor de morte e esterco.

Dois guerreiros,
serenos e metálicos
(loucos de Deus sem raiva na voz)
morrem martyrizados.

O meu pombo branco
regressa ao alto da estante
com as asas manchadas de sangue.

09.I.015


III

A minha atenção é desviada do interior de Deus
para o Seu exterior,
onde os symbolos se humanizam
e as sombras da Grande Catástrofe
pairam num amontoado de nuvens de cimento.
Oriente e Ocidente dão-se as mãos secretamente
no meu coração hindu, judeu, cristão e muçulmano,
mas, às claras, não se entendem
e transformam clarões em trevas
e as trevas numa guerra tremenda,
pérfida, traiçoeira e sem tréguas,
talvez provocadora da Última Hora
e da Segunda Vinda de Jesus
com seu látego e misericórdia.

O exterior de Deus nestes dias:
Movimentos cósmicos, vôos de borboletas que ocasionam abalos psíquicos e terramotos, doenças espiritualmente incuráveis, destinos malditos de uma beleza terrível, o amor que mata, a morte que dá vida a sós com o nosso espírito na vida eterna,
o profano a apropriar-se do espaço vital do sagrado,
a presença de Deus reduzida à sombra de uma Sombra,
o império dos ateus e dos ladrões do petróleo
bem iluminado pelas labaredas do inferno!

O som mais antigo de Deus ecoou na Índia,
Mãe de todas as religiões e dos 36.000 aspectos de Deus;
o som do Sânscrito da Índia
tornou-se voz de Deus
no som do Hebraico, língua que Moisés falou com Deus
de Quem recebeu a Thora;
e o som do Hebraico de Israel
tornou-se voz de Deus
no som do Aramaico, língua que Jesus falou com Deus
inspirador dos Evangelhos;
e o som do Aramaico de Nazareth
tornou-se voz de Deus
no som do Árabe, língua que Muhammad falou com Deus
que lhe ditou o Alcorão,
a Última Escritura até ao Último Dia, que se avizinha no Som de Deus.

O exterior de Deus consiste na Sua Palavra e no Lugar que ocupa no Livro e na Pedra,
superfície d’Escripta profunda
na qual se penetra descalço e sóbrio
com theológico turbante negro.

Qualquer religião é tão verdadeira
como este poema,
de um pobre murid de mãos em concha.


10.I.015

António Barahona, islamólogo.


2 comentários:

Jorge Melícias disse...

Ainda bem que existe alguém que nos diz a que é que não pode ser aplicada a sátira. Uma questão de somenos permanece, contudo: e todos aqueles milhões de fiéis por esse mundo fora que não se sentem mortalmente atingidos pelas caricaturas da religião que defendem ou que, alguma vez, cogitaram pegar em Kalashnikovs para abrirem fogo sobre tudo aquilo que, nas suas inatacáveis certezas, acreditam passível de ser obliterado. Estou em crer que também haverá dessa gente pouco realista que todos os dias se vira para Meca. Também fala por eles o autor deste texto?
Ou o islamólogo acha que esses serão menos crentes que os outros que ele defende? Que apenas no seio da cobardia e da barbárie o verdadeiro Corão pode e deve florescer? Que só uma religião pejada de sociopatas é holocausto suficiente para que deus for?
As convicções espirituais do autor são assim tão débeis que uns cartoons feitos num desvão de Paris façam perigar os seus alicerces mais básicos? Não era Maomé o profeta da paz, ou abria excepções para o martírio seleccionado?

“A liberdade espiritual do próximo” deveria ser directamente proporcional à sua capacidade de pensar e de se interrogar. Infelizmente a “liberdade” que o islamólogo aqui preconiza, mais do que um valor espiritual, é reactiva, acusatória e persecutória, e isso, malgré lui, ou nem tanto assim, tem um nome. Chama-se fanatismo religioso e para essa fogueira ele já contribuiu com mais uma acha.

De resto também eu vou tentar tomar do mesmo remédio e relativizar o chavão jihadista, geralmente acompanhado de gritinhos e outras manifestações de testosterona, do “Chegou a altura [do ocidente] de cair de joelhos e pedir perdão” e referir, en passant, um outro aspecto que considero muito mais delicioso: a questão da civilidade. E se aqui, caro autor, se partilhamos, em absoluto, a ideia da necessidade de o ocidente se civilizar, discordamos, estou em crer, do mâitre de etiqueta que poríamos à frente de tal tarefa. Não sei quanto a si mas eu desconfio um pouco, confesso, da noção de hors-d'oeuvre que o califado tem.

Gottfried Hammer disse...

14.I.015

Paz à sua bala