A linguagem é apenas um processo
As letras são como bolas
O que se diz só serve para esquecer
O Acto é o único movimento inteiro
O Objecto pode ter mais de um lado, desde que não lhe seja necessário
A mecânica não é o que nós pensamos, senão seria outra coisa
A vontade é que manda a gente ser escravos
O tempo é que mede o outro tempo e só dois tempos podem analisar-se ou ler-se
Dois gestos nunca podem ser iguais. Podem ser repetidos, porque aí já entra a vontade que é quem nos deixa ser escravos e às coisas também
Estar vivo não quer dizer nada. Uma garrafa também está e cada um de nós quer dela uma semelhança diferente
Equívoco é um dos problemas da arte, pois ninguém sabe onde ele nasce nem o que quer dizer. Entrando mal dentro de um quadro, por exemplo, a gente pode cair num abismo alheio que não foi feito para as nossas quedas
Letra é um desenho mudo que começa numa ponta e acaba noutra, produzindo sempre que caminha, um som diferente
Há letras que são decadentes, irremovíveis, como por exemplo, o Ó. Prova isso o facto de necessitarmos a todo o instante de inventar mais ós que os que são conhecidos. É quando a gente desenha e começa a dizer outras coisas que não são aquelas que tinha pensado
Inventar não é pensar. Mas podem fazer-se as duas coisas ao mesmo tempo e acabar por falar sòzinho, início de um tratamento para eliminar algum defeito na linguagem
Linguagem é querer dizer tudo ao mesmo tempo da mesma forma que toda a gente
Comunicação quer dizer muita coisa que, por vezes, não tem nada a ver com os outros. Aquilo que tem a ver com os outros, chama-se cumplicidade
Diálogo é tudo o que nasce sempre maior que o lugar onde nasceu
Falar é apenas o cumprimento de uma missão científica
O homem cumpre igualmente outras tarefas inúteis
Sombra é o espaço entre duas parcelas, nunca uma coisa em si. Quem pensava isso eram os românticos. Hoje pode um objecto ser o espaço entre duas sombras
Cada um de nós devia agir como se fosse uma árvore; sem ninguém saber o que cada um de nós pensa e para que pensa. Se as árvores me estão ouvindo podem dizer se isto é verdade ou não. E a verdade deve ser aquilo que nós e os objectos se acham entre si. Nunca de si para si
- Fernando Lemos
in Cá & Lá, Imprensa Nacional
terça-feira, fevereiro 04, 2014
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poesia de fora
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