quarta-feira, setembro 25, 2013

Dois poemas de Anna Akhmatova


Apertei as mãos sob o meu véu escuro...


"Por que estás pálido, o que te faz ser temerário?"
– Porque transformei o meu amado num bêbado
de uma tristeza áspera.

Nunca me vou esquecer. Ele saiu, cambaleando,
Com a boca torcida, desolada…
Desci as escadas a correr, sem tocar no corrimão,
e segui-o até ao portão.

E gritei, engasgada: "Tudo o que disse foi
A brincar. Não me abandones ou vou morrer de dor."
Ele devolveu-me um sorriso – tão calmo, tão terrível –
e disse: "Por que é que não sais da chuva?"



A mulher de Lot


E o homem justo seguiu o cintilante agente de Deus,
sobre uma montanha negra, no seu trilho gigante,
enquanto uma voz inquieta continuava a sitiar a sua mulher:
"Não é tarde demais, ainda podes olhar para trás,

e ver as torres vermelhas da tua Sodoma nativa,
a praça onde, uma vez, cantaste, a casa de tear,
as janelas vazias definidas na casa alta
onde filhos e filhas abençoaram o teu leito."

Um simples olhar: um dardo súbito de dor
suturando os olhos antes que ela fizesse um ruído sequer…
O seu corpo fez-se em sal transparente,
e suas pernas ágeis enraizaram no chão.

Quem vai chorar por esta mulher? Será ela
demasiado insignificante para a nossa preocupação?
No entanto, no coração, nunca a vou negar,
aquela que sofreu a morte porque escolheu olhar para trás.

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