sábado, junho 15, 2013

POESIA E TERROR



        SERVIDÕES
        Herberto Helder
        Assírio & Alvim

        O carácter demoníaco da poesia de Herberto Helder está latente, e chega mesmo a ser tematizado, neste novo livro, onde se polarizam os aspectos do hino e da elegia.


        Assim se inicia Servidões: com um texto em prosa de forte inclinação autobiográfica, muito mais transparente nessa sua dimensão de escrita da própria vida (“Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária”) do que qualquer texto anterior de Herberto Helder. Trata-se de um texto que, nalguns aspectos fundamentais, tem também marcas visíveis daquilo a que se costuma chamar uma poética, isto é, uma exposição, mais ou menos programática, de princípios poetológicos.

            Mas é tudo muito mais complicado do que aquilo que acabámos de sugerir. A dimensão para onde este texto nos conduz é mais originária do que uma poética porque o que nele se trata é da própria vinda da palavra poética; e a questão que o habita é o de uma mimesis originária de onde emerge a poesia. Neste sentido, ele apresenta-se mais como uma fenomenologia do espírito poetante (e uma razão ou fundo da poesia), para o qual podemos encontrar um análogo em “Sobre o Procedimento do Espírito Poético”, de Hölderlin. E, quanto ao aspecto autobiográfico, dir-se-ia que ele refere apenas cenas primitivas, originárias, que trazem consigo não a memória de uma história, mas de uma pré-história do poeta.  Erguer-se ao nível do puro eco dessa infância originária e das “servidões” carregadas pela vida – eis o trabalho desta poesia. Percebemos assim que ela seja ao mesmo tempo uma voz antiga, que provém do fundo dos tempos, e uma palavra actual, do agora em que se sente a  caducidade. Ela assenta entre dois extremos: por um lado, um nascimento iterativo que, por isso, é sempre renascimento: “saio hoje ao mundo,/ cordão de sangue à volta do pescoço,/ e tão sôfrego e delicado e furioso,/ de um lado ou de outro para sempre num sufôco,/ iminente para sempre”, diz-nos um poema de abertura, um poema com data (23.XI.2010: 80 ANOS), a data do aniversário do poeta; por outro, “a morte no gerúndio”. Oscilando entre estes dois pólos, contaminando-os, os poemas de Servidões tanto traduzem a intenção do hino sob a forma da elegia, como têm uma intenção elegíaca sob a forma de hino. Tanto é palavra que canta (“ofício cantante”) como palavra que recorda. E, por aqui, somos levados a entrar na dimensão órfica da poesia de Herberto Helder. O orfismo desta poesia significa que ela assenta numa região que não é aquela, integralmente profana, da lírica burguesa moderna e da noção de individualidade que lhe corresponde. Ela situa-se do lado do terror e de uma poética do trágico (a tragédia move-se na mesma órbita de significado que o orfismo); do lado de um demonismo alegórico – e de uma noção mística de daimon - que dá origem a versos como este: “os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora” (pág 68). Não conseguimos lê-lo sem um sobressalto porque ele torna patente, no mais alto grau, a conexão entre a noção de imagem e a de demonismo. E a temática demoníaca, sublinhemos, é referida explicitamente neste livro, desde logo no texto em prosa de abertura, onde podemos ler: “Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência”.

        Mas Servidões impõe que falemos dessa região do terror, da relação da beleza com o terror – uma relação eminentemente herbertiana. Essa relação pressupõe uma acção latente do mito (algo que é próprio de uma poesia órfica), como se a poesia de Herberto Helder nos convidasse a ter em conta a hipótese histórico-evolutiva de uma elaboração em sentido conciliador do mito nas formas da poesia (daí o fascínio do poeta pelas “magias”, pelas formas poéticas xamânico-cultuais), mas obrigando-nos a fazer o percurso inverso: da poesia para o mito. A poesia é assim entendida não como superação do terror mítico (como nos dizem as teorias da secularização), mas como inevitável via de acesso a ele. Os parâmetros da beleza, nesta poesia, não têm nada  a ver com a aparência da totalidade, com uma poética representativa e apolínea. A beleza herbertiana é trágica, é sempre uma composição a partir do caos e não traz consigo nenhuma salvação. Apresenta-se sob a forma demoníaca da imaginação alegórica: anti-representativa, anti-humanista, anti-mimética. Esta poesia interrompe o curso do mundo. É uma catástrofe.  


            - António Guerreiro
            in Ípsilon (14.06.2013)

1 comentário:

Cavalo de pau disse...

Costumo gostar da escrita do António Guerreiro e tenho inclusivé alguns textos guardados para me deliciar com a sua forma simples de escrever. Até hoje não tinha conseguido imaginar esta versão do António. Gosto de ler a poesia do Herberto Helder q.b, sem grande êxtase que acompanhe a opinião formada pelas companhias de opiniões. No entanto esbarrei aqui em algo tão absurdo que perdi a vontade que poderia vir a ter, de ler o último livro. Não o culpo a si, pois acompanho-o através do seu blog por vontade própria. Mas...

...é mais originária do que uma poética porque o que nele se trata é da própria vinda da palavra poética...

...que trazem consigo não a memória de uma história, mas de uma pré-história do poeta.

por um lado, um nascimento iteractivo que, por isso, é sempre renascimento...por outro, “a morte no gerúndio”...

...Esta poesia interrompe o curso do mundo. É uma catástrofe.  

Terrrrrrrível!

Experimente levar um desses sacos de plástico perdidos na rua e utilize-o para por as suas compras. Eu sinto o mesmo quando leio um texto deste género seja sobre um livro ou uma exposição. Sinto-o sujo de estar usado pelo desconhecido.

Abraços