terça-feira, maio 14, 2013


O homem que viaja e não conhece ainda a cidade que o espera ao longo do caminho, pergunta-se como será o palácio real, o quartel, o moinho, o teatro, o bazar. Em todas as cidades do império cada um dos edifícios é diferente e disposto segundo uma diferente ordem: mas assim que o forasteiro chega à cidade desconhecida e lança os olhares para o meio daquela pilha de pagodes e trapeiras e celeiros, seguindo os gatafunhos de canais hortas lixeiras, distingue logo quais são os palácios dos príncipes, quais os templos dos grandes sacerdotes, a estalagem, a prisão, a judiaria. Assim – há quem diga – confirma-se a hipótese de que cada homem traz na mente uma cidade feita só de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, e são as cidades particulares que a preenchem.
Não é assim em Zoé. Em todos os lugares desta cidade se poderia ora dormir, ora fabricar arneses, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, interrogar oráculos. Qualquer tecto em pirâmide poderia cobrir tanto o lazareto dos leprosos como as termas das odaliscas. O viajante anda anda e só tem dúvidas: não conseguindo distinguir os pontos da cidade, até os pontos que ele tem distintos na mente se misturam. Daí infere isto: se a existência em todos os momentos é toda ela mesma, a cidade de Zoé é o lugar da existência indivisível. Mas porquê então a cidade? Que linha separa o dentro do fora, o troar das rodas do uivo dos lobos?

- Italo Calvino
in As cidades invisíveis, Teorema

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