¿Y qué será de ti cuando te pierdas
en tu propria ficción?
Felipe Benítez Reyes
O sol declama umas tontices e aguarda
a sua vez para lançar a malha. Velho,
enturmou-se e não quer mais nada.
Quem ainda morde é o vento enquanto
uns cães de pedra guardam tranquilos
a beleza combalida destes caminhos
de cor e aroma bravios: muros de âmbar,
árvores cheias de vozes, bichos
e outros pormenores vivos. Um sopro
vagabundo e sem contornos faz medições
e desenha barragens a adivinhar por onde
irá a chuva. Algumas mesas de um
cinza-mármore flutuam pelo jardim
entre vagas sonoridades e balbucios
que parecem soar debaixo de água.
Olhos fundos, ávidos de outra luz,
os espectros desgrenhados de
um povo nebuloso. Restos de guerra,
de uma era entre o naufrágio e a glória.
O ar ganha peso junto destes que aqui
estão como dedos de hera presos entre
as fendas de um casco de navio.
A cinza cai e desfaz-se nas águas quietas,
negro azul, hialino. Ordens perdidas
ressoam em timbres cristalinos, outra
e outra vez, formando ecos
sólidos, alucinações. A espessura destes
reflexos faz deles ruínas espantosas.
O silêncio deslumbra-se. Uma música
pressentida, invisível ao ouvido, apenas
ao alcance dos olhos, solta a distância,
lastros e miragens. Horas vivas, agudíssimas,
a carne feita e desfeita entretendo esta luz
revoltosa. Uma aridez clamando por
morte, como um céu caído.
Por algumas horas pertencemos a um
quadro de uma outra era. A cabeça
bem erguida, o olhar límpido, marinho,
e uma ideia razoável do que é um homem.
Devolvidos, vagueamos sós como fantasmas,
a velha canção entre dentes, e nada
mais nos liga a um mundo que perdeu
o prestígio da fúria.
Evito-me, escrevo, vou bebendo o tom
das coisas. Deito este esboço antigo
a puxar pelo ritmo dessas vastas obras
errantes. Fecho os olhos, troco estas ruas
traçadas no jeito manco de quem ainda
bate a lendária perna de pau, e recupero
gritos trepados pelo mar, a linguagem
apanhada viva e o sequestro do vento
pelas velas, cada rombo e o sangue alto
a embandeirar sobre a arrebatada anotação
dos gestos que compõem este ritual mágico.
A noite estende, por fim, o braço ponteado
de cicatrizes luminosas, mapa das
minhas tristes capitanias, terras vastas
como a insónia. O eterno candeeiro ergue
nas lívidas paredes sombras medievais
e feras sonolentas,
um pequeno circo de cartão com melodia
de ferrugem e ossos. Beleza desenterrada.
Meu sono difícil leva e traz chifres
de unicórnio, cabelos de sereia e
outros amuletos. Suspiro e a minha
sombra tomba meio grogue,
faz de conta que estamos na cabine,
à deriva, bordando flores em alto mar.
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