sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Para o meu pégaso


Veemente deus de uma raça de aço,
Automóvel ébrio de espaço,
que pateias e fremes de angústia
roendo o freio com estrídulos dentes...
Formidável monstro japonês,
com olhos de forja,
alimentado a chamas
e óleos minerais,
ávido de horizontes, de despojos siderais...
Desacorrento-te o coração que bate diabolicamente,
desacorrento os teus gigantescos pneus,
para a dança que tu sabes dançar
pelas brancas estradas do mundo inteiro!...
Solto finalmente
as tuas metálicas rédeas,
e tu com volúpia lanças-te
ao Infinito libertador!
Ao latir da tua grande voz
eis que o sol poente te segue veloz
acelerando a sua sanguinolenta
palpitação, rente ao horizonte...
Repara como galopa, ao fundo dos bosques, lá em baixo...

Que importa, meu belo demónio?
Estou à tua mercê!... Leva-me!... Leva-me!...
Sobre a terra ensurdecida, ainda que toda vibre
de ecos loquazes;
sob o céu cegado, ainda que repleto de estrelas,
eu vou exasperando a minha febre
e o meu desejo,
vergastando-os a grandes golpes de espada.
E de quando em quando levanto a cabeça
para sentir no pescoço
em macio aperto os braços
loucos do vento, aveludados e fresquíssimos...

São teus esses braços fascinantes e longínquos
que me atraem, e o vento
não é senão o teu hálito de abismo,
ó Infinito sem fundo que com alegria me absorves!...
Ah! ah! vejo de repente moinhos
negros, desengonçados,
que parecem correr sobre asas
de tela vertebrada
como sobre pernas prolixas...

Agora as montanhas estão já prestes a lançar
sobre a minha fuga mantos de sonolenta frescura,
ali, àquele rosto sinistro...
Montanhas! Mamutes em monstruosa manada,
que pesados trotais arqueando
as vossas imensas garupas,
eis-vos superados, eis-vos envoltos
pela cinzenta meada das névoas!...
E ouço o vago ecoante barulho
que nas estradas imprimem
as fabulosas botas de sete léguas
dos vossos pés colossais...

Ó montanhas dos frescos mantos turqui!...
Ó belos rios que respirais
ditosamente ao luar!
Ó tenebrosas planícies!... Ultrapasso-vos a galope!...
Em cima deste meu monstro ensandecido!...
Estrelas! estrelas minhas! ouvis
o precipitar dos seus passos?...
Ouvi a sua voz, que a cólera racha...
a sua voz explosiva, que ladra, que ladra...
e o troar dos seus férreos pulmões
rrrruindo de rrrrompante
irrrrevogavelmente?...
Aceito o desafio, ó estrelas minhas!...
Mais rápido!... Mais rápido ainda!...
E sem trégua, nem repouso!...
Solta os travões! Não podes?
Rebenta-os, então,
que o pulso do motor centuplique os seus ímpetos!

Urra! Não mais contactos com esta terra imunda!
Desprendo-me dela enfim, e agilmente voo
pelo inebriante rio dos astros
que sobe em cheia no grande leito celeste!


- Filippo Tommaso Marinetti
(tradução de Vasco Gato)

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