Não maldigo a hora em que nasci. Um instante que seja de íntima elevação espiritual, compensa-nos de muitas dores; robustece o nosso orgulho em que se firma a nossa alma, como o corpo nos ossos do esqueleto. O esqueleto é o orgulho do corpo, a força que o sustenta de pé, – uma força petrificada.
E não maldigo a dor.
O sofrimento é a sensação do Eterno violentando a nossa capacidade de sentir que se exagera, a fim de apreender, dominar, o que existe de mais transcendente e fugitivo...
E assim, adquirimos um heróico e melindroso estado de alma, como íntima ferida sempre aberta, que sangra ao menor contacto. Eis o inferno e o paraíso de todos os poetas que fazem da sua existência uma divina comédia, com letra pequena, é claro. A outra, com maiúscula, pertence aos Deuses.
in Poesia de Teixeira de Pascoaes, Assírio & Alvim
quinta-feira, fevereiro 07, 2013
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