É doloroso e agradável surpreender e fixar, em poucas palavras, as figuras que se iluminam nas trevas do sepulcro e são da mesma sombra que nós somos.
Essas figuras, espectros de mim próprio, mostrá-las é mostrar-me. Que é a vida? Uma auto-revelação constante. Reparai num perfil humano e vereis, sobre ele, as mãos febris duma alma a trabalhá-lo, – duma alma que pretende rasgar a névoa e aparecer, cá fora, à luz do sol.
O ideal da nuvem é o rochedo. O Verbo quis ser Carne. Para quê? Para existir!
Também este sonho que eu fui, se realizou. Forcei a sombra, fui dado à luz, nasci, venci o Nada! Sou eu ! Sou eu! E eis tudo. Eis uma obra que levou a Eternidade a realizar.
Essa obra sou eu, como és tu, meu vizinho que não vês um palmo adiante do nariz e há quarenta anos contas pelos dedos uma soma que fazes todos os dias: 8 e 10 de pão mais 3 e 5 de sardinhas. Alegra-te comigo! Somos duas obras de arte fabulosas, duas estátuas que o Tempo esculpe desde a Origem! Alegra-te comigo!
A tua estupidez é mais bela, ingénua e simples que a minha inspiração; é uma cousa perfeita. Assim fossem os meus versos! O seixo que tens na cabeça não pesará mais na balança do Arcanjo do que esta voz que me sobe aos lábios a cantar?
Assim o creio; creio bem que os Deuses não tomam a sério os poetas, – inúteis cigarras de outra espécie.
Bates a sola todos os dias no próprio seixo da tua estupidez! Eu fico-me a cismar e também conto pelos dedos, como tu...
in Poesia de Teixeira de Pascoaes, Assírio & Alvim
quinta-feira, fevereiro 07, 2013
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