quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Félix, Félix...


Escrevo-te da minha cabana de Amiens
Escrevo-te da minha cabana

Assombra-me estar vivo neste meu júbilo sagrado
O rosto desfigurado de dor e de fé
Olhar quieto e vicioso nesta espera de algo
exterior ao meu delito e veneno
Aqui fico encerrado na minha cama sem lábios
como um duro diamante de carne niquelada
Não tenho companhia que me encha de deleites
Nem um amor de mulher que ponha a mesa
Nem quem me penteie os nervos de porco espinho nervoso
Quisera eu ter uma estrela aos pés
e uma trompete de felicidade
Chorámos tanto a minha solidão e eu
que sustenho em meu ser uma aura inútil
Meu ser é um sótão
povoado de lembranças

Escrevo-te da minha cabana

Alguém vem aí ou talvez seja apenas um excesso de pó
Neste ar de lume acumulam-se quimeras
Quem está aí? Eu vivo só e durmo
e durmo e durmo
e já não sei porque me despertam os arautos
Não são pessoas não é gente amiga
São outra coisa outra família ventos
Uma espécie de duendes sacerdotes
de valores secretos — Quem é que entrou?

— Somos nós a luz inocente
E mais não dizem Desperto estou
Félix Félix...

Escrevo-te da minha cabana

Escuto um silabar neste meu quarto em túnel
Um anjo e um fantasma vieram em silêncio
para me ver e dizem: — Este é
Este é o terceiro um homem estranho esfomeado
Grito-lhes Sim sou eu!
Vêem que estou completamente só
e no meu saco já não há pão
Calam-se Cessaram o seu rumor
Vão-se sem me terem dito nada mais
salvo haverem-me deixado enlouquecido
e riam-se ao ver que me erguia da cama
sem poder abraçá-los

Escrevo-te da minha cabana

Acordo cambaleando pela noite
Enegrecido de um sonho maléfico
Chego-me mais para lá onde há um álbum de fotos
e muitas poltronas vazias
Levanto-me para lavar a minha roupa
ensanguentada de suspiros
e abro a janela
O vento enterra reis na noite

Silêncio de gala à minha frente
Ninguém nada nunca me é constante
Meu arresto numa cristaleira de solidão
À linguagem pergunto se sou mudo
porque a minha fala não dá resposta ao pensamento
Com a imensa garganta ferida
peço beijos aos pássaros
Que no meu peito ponham os corvos o seu dinheiro
Que na ruína da minha alma caia uma cor de flor

Escrevo-te da minha cabana

Três seres anormais sentiram irmandade
um anjo um fantasma e um enfermo
Três nobres corpulências de niilismo e fim
Donos de obscuros dizeres como chaves de portas
Abriram os seus olhos de febres inumanas
à saúde ao gozo à vida ao espaço

Amados visitantes eu também cresço morte
Triste é toda a minha vida e toda a vida é triste
Começo a sucumbir quando entrais para me ver
na taberna do meu choro
Félix Félix...
Foram embora e fiquei outra vez sozinho
Adeus eu sou um pálido animal

- Carlos Edmundo de Ory
in Música de Lobo, Galaxia Gutenberg

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