O meu azar de mim depende
Parece que necessito da desgraça
E não sei dizer porque sou poeta
Sei apenas que toda a grande poesia
é fruto do sofrimento
A alegria de viver não é alegria!
O que é intenso é apenas intenso
E o sentimento trágico é o meu signo
Fisicamente estou são
Não necessito de médicos
Pode-se sofrer sem estar enfermo
O pior para mim é a dor de alma
que é sofrimento invisível
Na minha poesia não há o estado mórbido
Nem sou tão pouco um poeta maldito
Não sou um esteta na sua torre de marfim
Estou nas trevas da alma humana
Paixão! Embriaguez! Loucura!
Vejo as coisas como são realmente
Conheço o pavoroso
e o abissal por experiência
Jamais exagero pelo contrário
Saúdo o que reina sobre nós
com o seu poder lúgubre
Eu luto com a loucura
para salvar-me dela
Os burgueses não amam o obscuro
e tratam o artista como a um neurótico
Na Europa Byron foi o primeiro
Não faço o culto do sofrimento
como os poetas do século XIX
A poesia é um engenho da dor
já era antes da época moderna
A lenda de Orfeu o Kalevala
inteiro é ali choro e mais choro
A dor pertence-me
tenho que lhe responder
Não me interessa a felicidade
somente a vida soberana
o grandioso o abissal
a festa o ardor o perigo
a onda sacra do coração
a loucura dionisíaca
a beatitude do ser puro
A dor do homem de Sófocles
- Carlos Edmundo de Ory
in Música de Lobo, Galaxia Gutenberg
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