quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Café


O gosto que tenho
vem-me doutras paragens     lugares até onde nunca estive
interiores por exemplo
de oriente com calor e ventoínha     onde
de mesa em mesa     século em século     os versos
vão rendilhando as horas com secretos actos de paixão
dedos que se perfumam dos ares do café ao mesmo tempo
que os lábios que beijam lá para dentro dos versos
alguém que os terá beijado antes     amadores furtivos
amando até rasgar a pele dos dias e de passagem no café
povoá-lo de banais sentenças     vivendo
os instantes para sempre
E depois o que ficou     a mesa ali ainda com
o fresco das palavras ditas mas na recordação
Era um dia de julho     ias partir     havia uma remota hipótese
de contrariar tudo isso     de voltarmos talvez ao café
Um dia de julho fez a fita de ser adaga
de sempre juntos passámos a rio e margem     quem seria
uma coisa ou outra não decidimos     vejo-me agora
a lembrar os olhos que em mim levavam água
e adivinho no que me tornei
aqui nesta mesa     desistindo do palmier e do café

- Abel Neves
in Eis o Amor __ a Fome e a Morte, Cotovia

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