sábado, fevereiro 23, 2013


A claridade chega sempre do céu;
é um dom: não se acha entre as coisas
mas bem por cima, e ocupa-as
fazendo disso vida e labor próprios.
Assim o dia amanhece; assim a noite
fecha o enorme aposento das suas sombras.
E isto é um dom. Quem os seres fará
cada vez menos criando-os? Que abóbada
os contém no seu amor? Se já nos chega
e ainda nos espera, já se torna redonda
à maneira dos teus voos e se agita,
e se distancia e, ainda que remota, não há
nada tão claro como os seus impulsos!
Oh, claridade sequiosa de uma forma,
de uma matéria que a deslumbre
queimando-se a si mesma ao cumprir a sua obra.
Como eu, como tudo o que espera.
Se tu à luz a levaste toda,
como irei eu sem da alba pedir nada?
E, ainda assim – isto é um dom –, a minha boca
espera, e a minha alma espera, e tu esperas-me,
ébria perseguição, claridade solitária
mortal como o abraço de uma foice,
mas um abraço até ao fim e que jamais afrouxa.

- Claudio Rodríguez

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