sábado, janeiro 26, 2013


Compareceu nas festas em que foi assente a primeira pedra do teatro wagneriano. E tudo conseguiu feri-lo. A multidão era grosseira, os novos amigos do mestre servis, Wagner ciumento, mentiroso e mesquinho. Retirou-se para Munique, que tinha Tristão em cena, e ganhou alguma coragem. Em vão. Um amizade intelectual desfeita é a coisa mais desencorajadora que há no mundo. Sempre que surge uma ocasião de nos aproximarmos ficamos à espera, respiramos, durante algumas horas somos convencidos de que não nos enganámos. No dia seguinte tudo recomeça: a dúvida, o instinto de um desacordo fundamental, o pavoroso dever de não mais voltarmos a mentir, de quebrar o laço do espírito quando o do sentimento ainda se mantém e aperta, ao ponto de rasgar todas as fibras do coração. (...) Conforme Nietzsche vai desconfiando de que Wagner não partilha da verdade específica de Nietzsche, passo a passo se afasta e fá-lo com tanta hesitação como dor. Não, quem se desmentia não era ele; estava a enganar-se a respeito de si próprio quando associava a música de Wagner às necessidades que dentro de si existiam. Queimamos os ídolos que adorámos ao ver que só adorávamos a imagem de um desejo mascarado que não conhecíamos bem. Nesse campo, nem Nietzsche nem Wagner podem fazer nada. A amizade, tal como o amor, está sujeita às forças fatais de que a nossa vontade depende.

- Élie Faure
in A dança sobre o abismo (Nietzsche), Hiena

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