A maior parte do tempo vivia em muito miseráveis quartos mobilados, vagueando de cidade em cidade à procura de bem-estar e sono, muito fatigado por viagens incessantes, noites passadas em branco, pela passagem sem transição das mesas das pensões suíças às tascas da Riviera, pela forçada e contínua sobre-excitação cerebral a que se tinha condenado. Quando estava na montanha respirava e dormia melhor, mas a neve feria-lhe a vista. Em Itália tinha contra ele o ruído e a poeira. Reduzido à vida nómada, passava na Haute-Engadine, em Sils Maria quase todos os meses quentes, e de Inverno corria entre Génova e Veneza, entre Veneza e os lagos italianos, entre os lagos italianos e Nice, umas vezes permanecendo várias semanas onde o acaso o levava, outras dois ou três dias, perseguindo sem descanso o fantasma de uma saúde a que não ligava muito por considerar a doença provação necessária à disciplina moral. Devia, no fundo, querer-lhe muito. Ela tornava-o mais ou menos inapto para o amor. E como via no ascetismo do filósofo uma mais elevada condição de espiritualidade e um instrumento criador, como via no ascetismo do artista uma transposição do apetite sexual que era, como ele, um monstro com duas cabeças de artista e filósofo, não aproveitaria uma tal oportunidade para se espojar com fúria nesta «sagrada forma de orgia...»?
Na doença e na vida nómada de igual forma encontrava um meio de fugir daqueles a quem tinha excessivamente ultrapassado. Umas atrás das outras, as suas amizades desfilavam na estrada. Na mocidade ciumentas, entusiastas, febris, mais tarde tornaram-se bastante circunspectas mas nem por isso menos tiranas. Pelo menos, aos que encontrou na idade madura não exigia um arrebatamento igual ao que ele próprio tinha perante certezas que um pouco mais tarde, sabia-o bem, iria considerar erradas. As primeiras amizades são cruéis. A quem amamos e a quem nos ama não perdoamos que seja diferente de nós. O auto-domínio é que põe no devido plano a amizade e dá direito aos nossos amigos de não pensarem como nós, desde que saibamos reconhecê-los como exemplo da fidelidade e da nobreza a que aspiramos. Depois de fazer 35 anos, Nietzsche ficou mais ou menos só. E os seus últimos livros agravariam o silêncio em que em seu redor se fazia: «A não ser que tenha um Deus, o homem profundo precisa de amigos. E eu nem Deus nem amigos tenho!»
Sofreria ele de solidão ao ver-se completamente perdido num hotel da montanha? Mais perdido se sentiria ainda entre a sórdida e turbulenta multidão do porto de Génova, entre a ociosa multidão de Nice ou entre os turistas convencidos que, da praça de S. Marcos ao cais dos Shiavéne, passeiam sacos a tiracolo, Baedekers e chapéus verdes? Sim. Não recebia um encorajamento, que fosse, e quase nunca dessas cartas reconfortantes que nos reforçam a coragem e, para lá de rostos conhecidos e vozes familiares, mostram um coração que se eleva, abre e contrai com o nosso, uma longínqua sensibilidade em que o mais fraco dos nossos gritos penetra como um raio. Aquelas pessoas que o acotevelavam na rua mesmo na sua presença se permitiam admirar e julgar sem compreender, sem saberem que ao lado actuava uma terrível força. Nem chegariam nunca a sabê-lo. Eram incapazes disso. Se os fenómenos naturais extasiam ou aterrorizam os homens mais humildes (até mesmo os animais os sentem), porque estará só a grande alma condenada a passar sem ser ouvida? De facto, ele transportava consigo tudo quanto era sombra e luz mas ninguém o sabia, ninguém o sentia. Nenhum rosto ávido se aproximava dos seus lábios. O fardo caía totalmente em cima dele. No seu crânio girava uma implacável roda, moía a matéria pensante de onde lampejos escorriam. Quanto mais ele se elevava, mais sentia o poder de recriar para os homens um pretexto de acção, e mais eles o isolavam nesse poder que nem sequer medo lhes metia, que pura e simplesmente ignoravam. A sua vingança era poder vaguear ao pé daquele mar onde a montanha vivia. Chegava a acreditar – repetiu-o vinte vezes – que entre a silenciosa e fresca atmosfera das alturas, o sopro dos glaciares, a proximidade das estrelas e o seu violento impulso acima de mentiras e compromissos do mundo havia uma troca de confidências que lhe povoava a solidão e o subtraía ao desespero... «Queremos viver acima dos impuros como esses ventos fortes que são vizinhos da águia, vizinhos da neve, vizinhos do sol. Assim vivem os fortes.»
Ia suportando o mais insuportável dos suplícios, que é sentir no coração algo pior do que a morte e trevas, a dúvida sobre nós próprios, acerteza de que o globo será aniquilado e o esquecimento definitivo; não seria possível interrogar uma alma e pedir-lhe ajuda porque não havia, de facto, nenhuma alma à volta e o próprio isolamento, ao prolongar-se, dava-lhe tempo para repelir as tentações do pessimismo que o isolamento provoca. «Quando me acontece pensar: não posso suportar mais a solidão, sinto uma indizível humilhação perante mim próprio; sinto uma revolta contra o que em mim existe de mais elevado.» Uma vez que a sua actividade chegava para justificar a vida, o génio alheio a qualquer objectivo, a qualquer sanção, a qualquer admiração testemunhada ou solicitada, o génio (que é a vida levada ao mais alto ponto de actividade pelo homem) não poderia girar eternamente no seu próprio círculo, correndo o risco de nunca ser ouvido? E se o homem já ultrapassou a hora em que precisa da sociedade dos outros homens, se já subiu tão alto que nada tem a aprender com todos os que estão vivos, ao ponto de só conseguir dialogar, através do silêncio dos séculos, com alguns espirítos raros cujo cimo emerge só da sombra do passado e também só se vislumbra na sombra do futuro, não poderá encontrar nesta certeza um orgulho capaz de levar o consentimento à obscuridade do seu próprio nome e uma liberdade de criação que o eleve cada vez mais alto? Como é natural, nas pensões onde vivia entre doentes, pobres criaturas apagadas, velhas senhoras, Nietzsche modelara para seu uso próprio uma personalidade de superfície. Por que havemos de tentar oferecer aos vermes olhos e orelhas, e propor o violento ar das montanhas aos que vivem em caves, mesmo situadas a seis mil pés de altura? Informava-se delicadamente sobre a saúde dos convivas, falava do tempo que ia fazendo, dir-se-ia que escutava com interesse as notícias comentadas pelos que liam jornais.
- Élie Faure
in A dança sobre o abismo (Nietzsche), Hiena
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