Rompesse o sol como no encontro do corpo,
não se sabia quem tinha de começar, esse véu
no rosto por trás do teu e as águas deste rio
levadas a outro rio por canos e valas de pedra.
Sem lâmpadas ao meio da noite não eram por ali
os passos de pedra em pedra, um homem devagar
sorvendo a água das mãos. As caixas dos jogos
espalhados num monte, a ronda dos primeiros
fantasmas debruçando-se nos ferros da cama,
à praia vinham dar as luzes do arraial, os lábios
colados na corda que apertava os teus cabelos,
punha armadilhas para me prender ao momento,
à atenção de dar corpo ao desejo. Encontrei-te
a uma árvore do campo grande, entremos no mar,
um de cada vez, sim não posso, tenho de fazer
descer a cabeça num ombro longínquo, esquecer
como se partem os ramos para achar o caminho
da floresta. Não ter medo de dizer que é assim
o medo, a cama e nenhum véu sobre o rosto
ou sobre o ventre, o sol rompendo por sombras
falsas e dejectos.
- Helder Moura Pereira
in De novo as sombras e as calmas, Contexto
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