sexta-feira, novembro 09, 2012

La Mariée

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Um discurso murmuro – pensamentos quebrados e em diversas línguas, traduzidos à pressa (para não ver bem, nem pensar mais nisso) mas com dor (às vezes quase só ela) para português. Um discurso poético no pior sentido: entendê-lo-ão melhor aqueles que já se deram conta de como isto, esta atenção que nos ultrapassa, nos descuida e assoberba, significa um profundo mal para o espírito ou, pelo menos, para os que ambicionavam 'paz de alma' – como se uma não excluísse a outra. Não é o Inferno de Dante – deixem-se de merdas & comparações. (A poesia dispensa bem as quatro dimensões e até as três, bastando para começar estas duas: a de lá e a de cá.) O que é é devastador para quem também se lembra de já ter aguentado mais tempo sem precisar de vir ao de cima e respirar no meio das maiorias que marcham. Como um perigo natural, esta escrita, sem grandes requintes, impõe-nos o seu desastre. Só é preciso sermos 'desses' que ainda se sujeitam a violências assim:

Europa do sul


Ao longe e à distância,
via que não havia verdadeiramente nada para ver.
Um buraco. Uma falha cada vez mais profunda
através da qual
a história e a geografia se engolfavam
na sua própria impotência.
Depois, como a convidados de circunstância,
consentidos mas não desejados,
sentia na pele que lhes confundiam
estado e natureza, identidade e condição.
Em comum, nem língua nem passado.
Muito menos futuro.



Publicidade


Uma refeição por dia.
Pão, leite, um pouco de fruta.
Iogurtes, bolachas, presunto,
no corredor do supermercado.
Nunca roubava nada que não lhe tivesse sido prometido.


 

Hora de inverno


Telefonava à noite.
Chamadas internacionais.
Não dissera a ninguém onde estava.
Fazia de conta que continuava em Lisboa,
e combinava, às vezes, vagos encontros para
a semana seguinte.
Iria faltar.
Depois de desligar, saía pelas ruas à procura
de um bar.
Entre o que se comprava e o que se vendia,
acabava por cair na troca directa.
A cerveja pela companhia,
o whisky pela cama.



Meta-narrativa


A cona,
ouvira dizer,
não consistia propriamente na carne,
mas nas histórias que se contavam.
Menos na fenda que tinha entre as pernas
do que naquilo que eles imaginavam.
E no que quer que lá quisessem enfiar.



O amor


Uma moeda, uma ranhura.



Infidelidade


Não mentiu, não escondeu,
não enganou.
Simplesmente não o conseguia levar a sério.
Por vezes, tinha de se controlar,
evitava rir.
Sabia que, se começasse, não conseguiria parar.



Meia idade


À sua volta apenas carne velha.
E ela própria velha, se não na carne,
naquilo
em que anos antes tinha chegado a acreditar.
Já nem tentava,
mas ainda era capaz de fechar os olhos contra
palavras e espelhos,
e manter a mentira.



Minoria silenciosa


Preferia permanecer calada a ter
de fazer de conta que tinha alguma coisa para dizer.




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