quinta-feira, novembro 01, 2012

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«Domingo. Atravessando uma aldeola infestada de moscas, a minha companheira apontou-me as inscrições nas paredes das casas, semelhantes a caracteres cuneiformes, e perguntou-me se eu era capaz de decifrar. Respondi que não, como um idiota, sugerindo que possivelmente se tratava de amárico. Gargalhada. Explicou-me então que um venerável bufarinheiro, que passa por aqui todos os seis meses, vende uma erva especial importada de Medina e muito apreciada aqui pela sua proveniência da cidade santa. Como nem sempre as pessoas lhe podem pagar imediatamente, ele concede crédito mas anota, com um caco de barro, na parede do devedor, o montante da dívida para que nenhum se esqueça do débito.
Segunda-feira. Ali afirma que as estrelas cadentes são pedras lançadas pelos anjos para afastar os demónios que se aproximam do Paraíso a fim de escutar as conversas onde se enunciam os segredos do futuro. Todos os árabes têm medo do deserto, mesmo os Beduínos. Que estranho!
Quando cai um silêncio no meio de uma conversa, dizemos "Passou um anjo". Aqui, se o silêncio se prolonga, alguém murmura: Wahed Dhu (Deus é único), e os outros respondem fervorosamente La Illah Illa Allah (Só existe um Deus) antes de retomarem a conversa interrompida. Considero estes usos encantadores.
O meu hospedeiro utiliza uma curiosa expressão quando fala de "retirar-se dos negócios". Diz que vai "realizar a sua alma".
Também nunca tinha experimentado o café do Iémene com uma gota de âmbar cinzento em cada chávena. É delicioso.
Outra coisa: Mohammed Shebab, quando me encontrou, perfumou-me com uma gota de jasmim que derramou do seu frasquinho conta-gotas – como na Europa se oferece um cigarro a um desconhecido.
E ainda: aqui adoram as aves. Num cemitério abandonado encontrei túmulos de mármore onde há pequenos bebedouros para os pássaros, que as mulheres da aldeia vêm encher todas as sextas-feiras.
Finalmente: Ali, o administrador negro, um imenso eunuco, disse-me que acima de tudo temem, como sinais nefastos, os olhos azuis e os cabelos ruivos. Os anjos caídos, no Corão, têm olhos azuis.»

- Lawrence Durrell
(tradução de Daniel Gonçalves)
excerto do diário de Mountolive
in Mountolive, Ulisseia

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