sexta-feira, outubro 05, 2012

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Um dia destes, numa aborrecida sala de espera, caiu por acaso nas minhas mãos uma revista ilustrada americana de ampla divulgação. Tropecei num anúncio a toda a página e a cores: representava a fachada ocidental do Pártenon. Do lado direito do quadro, em plano secundário, como uma visão irreal, dois jovens turistas apoiavam-se, diante de dois copos cheios, sobre uma parte de coluna que lhes servia de mesa. Este reclame proclamava: «Quanto mais souber de arquitectura da antiguidade, mais gosta da Acrópole» ("The more you know about anciente architecture the more you like the Acropolis.") A finalidade desta encenação era divulgar uma bebida anglo-saxónica.
Não sou aficionado da «turistocracia» moderna que sufoca a nossa época, mas no momento em que penso num trabalho que pretende, como acho justo, constituir um contributo importante para o conhecimento mais amplo dos nossos monumentos da antiguidade, esses «elos unidores dos antigos como os de hoje», não me foi difícil reparar no acontecimento atrás referido. Ele demonstra, de facto, a que distância está o presente de hoje, este que absorvemos com todos os poros do nosso corpo, desses passados profundos.
«Quanto mais souber da arquitectura da antiguidade...»
Não sei nada do que ganharia o desfrute da Acrópole por estes dois jovens se despejássemos de repente na cabeça deles certos pormenores arquitectónicos um pouco mais específicos embora bastante conhecidos. Tais como, por exemplo, que não existe no Pártenon sequer uma linha verdadeiramente recta; que o paralelepípedo que nos parece este templo, se o projectássemos do solo um ou dois quilómetros, tomaria o aspecto de pirâmide; que, todavia, todos estes e ainda outros pormenores, invisíveis para nós (os de hoje precisaram de fazer medições minuciosas para os confirmarem), eram visíveis aos olhos dos homens daqueles tempos. Assim, temo bastante, o anúncio que aguilhoou a minha atenção, não deve na verdade significar nada mais do que uma superstição qualquer da nossa era tecnocrática, que empurra o homem a acumular informações e pormenores, mais ou menos desconexos, sobre qualquer coisa.
E pergunto-me se por acaso não me emocionam mais os homens de outros tempos, cujos conhecimentos podiam causar-nos hoje hilaridade, mas que provavelmente tinham sentidos mais próximos do equilíbrio que ansiava ver de vez em quando nas almas dos que estão em meu redor.

(...)

- Yorgos Seferis
Excerto do ensaio Tudo Cheio de Deuses
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis)
in Poemas escolhidos, Relógio d'Água

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