Nietzsche equivocou-se: somos mais fortes
quanto mais débeis os mitos.Joan Margarit
Uns passos até à janela desenhada
pela claridade longínqua que o galo
já se pôs a declamar. As distâncias
surgem tensas, o céu magoado como
esse odor civil que as flores largam
enquanto o tédio militar do vento as
destroça. Durante a madrugada armou-se
em valente e atirou o estendal ao chão.
As sombras menores agora perdem-se
na roupa enquanto as outras saltam
à corda. Não vem de muito longe
o enferrujado murmúrio dos baloiços
que assinala o lugar onde a infância
foi enterrada.
Uma tempestade canta no terror dos campos
empalidecidos e, se chove mais, o corpo
enlanguesce diante de embarcações
engolidas pelos séculos, que atracam por aqui
brevemente. Inclinas o ouvido, perdes-te
no sussurro medieval destas águas –
largo espelho onde se animam as frontes
quebradas dos antepassados.
Longos bandos de aves atravessam
a região, como procissões piedosas. Tudo
é remoto, um luto antiquíssimo comanda
o menor gesto, no espaço mínimo
da mesa de pedra onde traduzes a
paisagem em lentas sílabas de sombra.
A noite estende-nos a sua mão de vidro
onde bebemos o vinho cintilante
dos nossos reflexos. Luz assombrada
que vai ficando de verso para verso
entre estes corpos de penumbra
e vozes sem conta, ecos envelhecidos.
Vidas meio inconscientes, mas de pé,
ao balcão. Como uma infantaria cansada
de trincheiras e pás, deixam-se alvejar
de peito aberto. E quando não podem mais,
são fantasmas a cambalear pelas ruas
até caírem nalgum buraco ou ao lado
de uma mulher. Foi sempre esta
a ideia que fizeste do que é um homem
entre homens, disposto a sofrer com eles,
enlouquecer com eles. Um povo
que abdicou de fazer heróis, e dessa
escolha retira toda a sua força.
Aqui morre-se de uma morte incerta
e senil, morte que falha e se esquece.
Sem forças, deixa-os pervagar
a certas horas. Ali vemos um, mãos
cruzadas atrás das costas, e vai repetindo
os últimos passos antes de se convencer
a reabrir a ferida e violar de novo
a terra. Ou essa outra figura devorada
cantando na sua própria luz, os acordes
de uma dor que nos educa e encanta,
frágeis mitos, as estátuas anónimas
trocando olhares comovidos
nestas praças negras dedicadas à memória
de impossíveis derrotas. Uma quietude,
a sensação de uma eternidade maligna
que nos devolve aos lugares onde a vida
não soube distinguir-nos uns dos outros.
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