segunda-feira, outubro 15, 2012

transportes públicos 

Não compro o passe do J. desde que deixou de haver passe para crianças. Sei que ele tem direito ao Social + (o meu é-o) mas não percebo (a não ser por aquilo que já todos conhecemos da nossa burocracia) por que raio não foi automaticamente estendido ao agregado familiar. Para ver o chip do passe actualizado terei de perder uma manhã na fila dos pobres - sim, porque suspeito que seja para isto que nos andam a preparar: filas que nos separem, que nos segreguem e, acima de tudo, nos amansem. Certo director técnico de um clube de futebol disse-me um dia que, sempre que um jogador se queria reunir com ele, fazia-o esperar uma hora na sala de espera: quando finalmente era convidado a entrar estava de tal forma desmoralizado que reivindicava menos de metade do planeado. É assim connosco, de cada vez que nos obrigam a ficar quatro horas numa repartição, quarenta minutos numa estação de correios, seis horas num hospital: esmagados, perdemos a coragem de pedir o que é nosso, de exigir o que é de todos. 

retirado daqui

1 comentário:

Luís França disse...

Sugestão de leitura: A Arte e o Modo de Abordar o seu Chefe de Serviço para lhe Pedir um Aumento, Georges Perec (edição portuguesa pela Presença, em cujo site se diz: Neste texto que só agora foi objecto de publicação em livro, Georges Perec explora os jogos e os limites da linguagem partindo de um curioso organigrama, contando numa única frase sem pontuação a história de um insignificante funcionário de uma grande empresa, que tenta chegar à fala com o seu chefe no momento mais propício a obter aquilo que pretende. O discurso narrativo cobre todas as opções, até à exaustão, nunca sendo exactamente o mesmo graças a ínfimas variações. Entretanto, a descrição vai destilando uma insidiosa ironia, em que o lúdico e o absurdo se combinam de forma genial.)