quinta-feira, outubro 11, 2012

Santa Cecília by night

É quando as sombras escrevem seu «Manifesto dos dias terríveis». A lágrima como sistema. O corpo, absorto & extasiado, perscruta sua própria matéria de cinza & pós-guerra, de fala surda & possibilidade de telefonema de última hora. Somente porque, em algum momento desta manhã desapontada, alguém se lembrará dos imensos sinais nas plantações de trigo do sul da Inglaterra & dos zumbis bombardeados de crack do centro da cidade entre pombas que comem restos de hambúrgueres e bebem viscosas cusparadas. Passamos a outro caso, a destruição como sinal de vida. Na fotografia do russo radicado há décadas em São Paulo observamos tripas claustrofóbicas. O ferido que a hostil gleba atra escarva. Como uma arraia que aparta dois mundos (tal qual um piano de cauda) ao cruzar as lâminas de sol que rasgam o sinfônico azul dos oceanos. O último solilóquio dos suicidas. A realidade é apenas o rastro do rato no sótão. Pressupor dádivas maduras caídas do céu estrelado é crer que a noite, com seus coices, cheire a flor.

- Fabiano Calixto
in Telhados de Vidro, n.º16, Averno

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