quarta-feira, outubro 17, 2012

Romiossíni ("Ser Grego")

I

Estas árvores não se dão com menos céu,
estas pedras não se dão sob o pé de estrangeiros,
estes rostos não se dão senão ao sol,
estes corações não se dão senão com a justiça.
Esta paisagem é dura como o silêncio,
cerra em seu seio as pedras abrasadas,
cerra em sua luz as órfãs oliveiras e as vinhas,
cerra os dentes. Não existe água. Somente luz.
O caminho perde-se na luz e a sombra do redil é de ferro.
As árvores, os rios e as vozes marmorificaram-se na cal do sol.
A raiz tropeça no mármore. Os juncos cobertos de pó.
A mula e a rocha. Ofegam. Não existe água.
Todos têm sede. Desde há anos. Todos mastigam um naco de céu por sobre o seu amargor.
Seus olhos estão vermelhos da vigia
um sulco profundo cavado entre as sobrancelhas
como um cipreste entre duas montanhas ao pôr do sol.
Suas mãos estão pregadas à espingarda
a espingarda é o prolongamento de suas mãos
suas mãos são o prolongamento de suas almas
— têm nos lábios a cólera
e têm a dor no fundo bem fundo de seus olhos
como uma estrela numa mina de sal.
Quando cerram a mão, o sol é certo para o mundo,
quando sorriem, uma pequena andorinha desprende-se de sua barba
quando dormem, doze estrelas caem de seus bolsos vazios,
quando são mortos, a vida sobe a rampa com bandeiras e tambores.
Desde há tantos anos que todos têm fome, todos têm sede todos são mortos
cercados por terra e por mar,
a canícula devorou-lhes as terras, e a água salobra alagou-lhes as casas
o vento derrubou-lhes as portas e os poucos lilases da praça
pelos buracos de suas mantas entra e sai a morte
sua língua é áspera como a noz do cipreste
os cães morreram enrolados na própria sombra
a chuva fustiga-lhes os ossos.
Petrificados nas guaritas, fumam a bosta e a noite
vigiando o mar enfurecido onde se afundou
o mastro quebrado da lua.
Acabou-se o pão, acabaram-se as balas,
agora enchem os canhões apenas com seu coração.
Tantos anos sitiados por terra e mar
todos têm fome, todos são mortos e nenhum morre
— lá em cima nas guaritas os seus olhos brilham,
uma grande bandeira, uma grande fogueira toda vermelha
e todas as madrugadas milhares de pombas voam de seus olhos
para as quatro portas do horizonte.


IV, 8-14

Árvore a árvore, pedra a pedra, atravessaram o mundo,
com espinhos por travesseiro atravessaram o sono.
Traziam a vida nas duas mãos ressequidas como um rio.
Em cada passo ganhavam uma braça de céu — para o darem.
De sentinela no alto das guaritas, estavam petrificados como árvores queimadas,
e quando dançavam na praça
dentro das casas tremiam os tectos e tilintavam os vidros nos armários.


- Giánnis Ritsos
(tradução de Custódio Magueijo)
in Antologia, Fora do Texto

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