segunda-feira, outubro 01, 2012

Factos sobre as Coisas

As coisas estão cansadas.
As coisas gostam de se deitar.
As coisas ficam felizes quando,
sem qualquer motivo, entram em colapso.

Aquela garrafa de plástico francesa, ainda meio cheia,
aquele livro de capa mole, que se inclina
sobre outro livro, sonolento:
de caminho vão querer sair,

de caminho encontra-los sobre a relva
com as garrafas vazias de lixívia e aquele bocado
de sinal de uma imobiliária
coberto de uma fuligem como rímel.

Aquele saco de plástico que tu dobraste
sente-se constrangido por ti e quer
pendurar-se nos arbustos, semelhante
a um espírito, estirado, a pedir boleia.

As coisas são vagabundas, ordinárias, transitórias:
preferem que esteja a chover.
As lâmpadas gostam de se deitar nessa mesma
vasta extensão de relva, descontraída, por cortar,

a observar o efeito funil: a forma
como, ao olhar a chuva lá em cima, tudo parece
dobrar-se na tua direcção,
a forma como a chuva parece gostar de ti.

As coisas que não entram em decadência
preferem os arbustos, gostam
de estar quase enterradas.
Gostam do fresco da relva.

Mais do que tudo, gostam
quando chove.


- W. N. Herbert
(tradução de Hugo Pinto Santos)

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