segunda-feira, outubro 01, 2012

Ariadne em Broughty Ferry Beach

Ariadne dorme no ventre do areal,
acantonada na sua carapaça de seda roxa,
rodeada de declives, côncavos abandonados
de jovens e moças, o vestígio na areia que foi
o seu senhor, as cinzas pejadas de areia que perfumaram
o escuro em que ela sonha, aquela rede colante,
recurva como uma barcaça
na baía sem um só batel.
Qualquer coisa como um bico
acorda no seu maxilar superior, a pele retrai-se,
algo como a felpa de um ramo lhe rompe
as costelas, a barriga cresce e cobre-se de manchas,
como um cão a afogar-se, uma criança a morrer de fome;
calafetada e impregnada com pez, enegrece a sua pele que sonha,
mal se mexe, as suas pernas estalam, há cabelos expulsos,
treme, sufocada; as pálpebras deformam-se,
enquanto olhos se dividem em olhos, se dividem em olhos.
A vinha
da metamorfose tomou conta dela,
a árvore divina cresce nela e dela brota,
enquanto Dioniso sorri e limpa o queixo, mexendo
a seda com um pé incerto, e a deixa entregue a si própria;
acordará ao abandono,
no dorso espelhado das águas.

- W. N. Herbert
(tradução de Hugo Pinto Santos)

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