quinta-feira, setembro 27, 2012

Quatro poemas de Peter Reading



Os versos são para os sadios
pintas das artes. Os que morrem
e os cirurgiões usam a prosa.



Soirée


Uma coisa engraçada, quando se ama alguém,
é o quanto se aguenta – a conversazione
dos pais dela, por exemplo,
ou ser amável para os parvos com quem ela trabalha,
que fumam charutos inferiores e acham
que isso é savoir vivre, e que me arrastam para beber
desatinadamente, e muito depois da hora de me ir deitar,
e que põem discos (meu Deus!): coisas como Ray Conniff.
E todas aquelas malditas perguntas da treta: «Diga-me, Peter:
sobre que é que escreve?» (caralhos como tu, pá).
«Peter, interessa-se por História?»
(Olha, pá, eu nem m’interesso pelo
presente.) Ainda assim, estou aqui porque a amo.



Durante a Leitura


O sorrisinho falsamente tímido,
a complacência
que o frisson faz rir,
o sicofantismo.



Exponencial


A neutral debulhadora cor de milho –
primeiro vemos-lhe a sombra
a aproximar-se, cortar hectares.
Tudo tem o seu tempo: a firme debulha,
o negro andorinhão em vaivém,
a média do Dow-Jones, finanças, finanças.

(tradução de Hugo Pinto Santos)

1 comentário:

Lp disse...

Quatro biqueiradas na cabeça...
Até fiquei a ver estrelas!