Não tenho carta de condução.
Nunca quis nem quero ter carta de condução.
Não posso ser taxista como Sunny Murray foi.
Mas posso ser mendigo como Giuseppe Logan.
Posso ser mendigo e não ter nome
nem saber tocar um instrumento.
E, ainda assim, tocar dez instrumentos,
para gáudio de poucos e tormento de menos
e total indiferença dos esmoleres.
Posso emagrecer de fome, cigarros e bagaço,
ter dores de dentes sem auxílio,
acabar com a coluna em pedras húmidas.
Posso perder o hábito burguês da higiene
e, desorbitado, mostrar o caralho às transeuntes.
Posso ganhar e perder rixas a propósito de nada.
Faça o que fizer, serei sempre um mendigo moderno,
ao arrepio das boas velhas práticas
da ignorância e do medo.
Desnorte, confusão, talvez me sobrevenham
mas Lisboa é uma cidade pequena
e nunca perderei o rumo muito longe de um hospital.
Como nunca esquecerei alguns poemas,
mesmo que os livros jazam noutras vidas,
em casas aquecidas pela covardia,
que é a luz-piloto dos burgueses
e impõe limites à rectidão e à exigência.
Há anos que via isto a aproximar-se
como vejo as depressões e a epilepsia
e sempre me auto-mediquei com menos vícios.
Mas, agora, a hora é de avançar em frente,
de consumar a pedagogia do exemplo,
sem esperança de que surta efeito algum.
É hora de demonstrar aos cães sem raça,
aos proverbiais cães que não conhecem dono,
que, vindimadas ou não, as suas vinhas
devem ser espezinhadas sem proveito.
Talvez, um dia, um miúdo impúbere
pinte com mosto uma tela exemplar,
mapa dos pontos mais altos da cidade,
onde antevejo fundir-me com as Estações.
- Miguel Martins
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