como uma torre na cidade, cambaleando
silencioso e divino sobre a linha
em que a guerra dá os seus frutos.
Dylan Thomas
A tarde toda andei só, um cansaço
murmurando ruas confusas, embaraçadas.
O ritmo das nuvens como uma febre.
Outra cabeça nos meus ombros, uma
imaginação mais forte. Os meus passos
mordem-se e o olhar trepa a tudo.
As árvores, o vento no balanço das
distâncias. Na ramagem aqueles frutos
agudos e uns pássaros alcoólicos.
A luz vem tilintando, os últimos trocos
do dia nas mãos dos geniais pedintes que
cirandam pelos jardins enquanto
um sol químico lhes ferve as veias
e os lança naquele consolo alucinado.
As fontes doidas de ternura, as folhas
pelo ar embaladas na música tola e
indefinida que o vento faz. Levo este
meu trôpego andar de algemado,
viajando no sentido dos ponteiros
em direcção ao poema. Um porte solene
de fantasma e a respiração devorada,
na roupa um cheiro frio e sem forças
de quem não dorme em casa há semanas.
As mãos molhadas de sombra, dedos
magros e nodosos enrolando o fio de um
eco gelado. Cerco-me. Confundo-me
entre esses tipos cheios de uma
paciência inútil. Dobrados, misteriosos,
tão vagos. A matéria prima da solidão.
Meu velho exército com a sua tosse
sibilante e essas raivas, remorsos,
desordens. Uns restos humilhados,
uns projectos tontos – a leve ficção
que ainda nos segura.
Este mundo é metade do diabo
e metade nosso. Seguramos a linha,
aturamos as provocações da morte, o tempo
e os piolhos, o calor e as moscas, a fada
da merda de um lado para o outro a
levar as intrigas do costume, uma canção
lenta e suja deitando as noites a perder.
E as nossas sombras, desengonçadas e
húmidas, a iludirem-se. Quase se ouve
o rumor do sémen. Gestos exagerados
de um bando de sedutores sonâmbulos
apalpando ausências. O sonho impondo
à carne o seu império.
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