tornam-se, graças à tua serenidade inabalável,
uma distante e inverosímil piada de mau gosto.
Já não há necessidade de lutar ou sonhar ou iludir-se
nem começar de novo para tentar fazer as pazes consigo mesmo.
Aqui estou eu e eu sou. É tudo. Esta é a minha casa, simplesmente.
Agora sinto que um a um me abandonam os meus rostos e
as obsessões que nos fazem hastear, como um amor sem piedade,
o coração que nem uma bandeira no meio da guerra.
Tenho um profundo desejo de viver, viver e morrer.
Aos oitenta e tal anos,
tudo foi recriado em torno de um assombro interminável:
a primavera, o mar, o silêncio, e William Shakespeare.
Parece que até mesmo a morte deixa de nos assombrar como uma mentira
para também ser um hóspede nosso
e coroar essa alegria impossível de conter
quando a alma coincide com as coisas eternas.
Mendigo a luz dos dias em que um homem tinha importância,
e um céu levemente bêbado, contido, aquece a minha velhice,
com o privilégio desta paz que chega às vezes a doer-me.
Posso olhar para mim
entre as coisas que me acolhem e acompanham com uma dignidade imensa,
e não sentir o sufoco do mundo, o abismo de não ter sido."
- Osvaldo Ballina
in Nueva poesía argentina, Hiperión
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