TRABALHOS DO POETA
[1949]
[1949]
XI
Ronda, insinua-se, afasta-se, regressa nas pontas dos pés e, se lhe chego a mão, desaparece, uma Palavra. Só distingo a sua crista orgulhosa: Cri. Cristo, cristal, crime, Crimea, crítica, Cristina, critério? E zarpa da minha frente uma canoa, com um homem armado de uma lança. A leve e frágil embarcação corta velozmente as ondas negras, as levas de sangue negro das minhas têmporas. E afasta-se para o interior. O caçador-pescador escruta a massa sombria e enublada do horizonte, cheio de ameaças; esconde os olhos sagazes na rancorosa espuma, aguça o ouvido, inspira os cheiros. Por vezes cruza a escuridão um lampejo vivaz, uma aba verde e escamada. É o Cri, que por momento vem à tona, respira e volta a submergir nas profundezas. O caçador sopra o corno que traz atado ao peito, mas o seu enlutado mugido perde-se no deserto das águas. Não há ninguém neste imenso lago salgado. E está já longe demais a praia rochosa, longe as luzes dos casinhotos dos seus companheiros. De quando em quando o Cri ressurge, mostra a sua barbatana nefasta e esconde-se. O remador fascinado segue-o, até ao interior, cada vez mais perto e mais dentro.- Octavio Paz
in Águila o sol?
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