domingo, março 11, 2012

TRABALHOS DO POETA

[1949]


X

Não bastam as cobras e os lagartos que pronunciam essas bocas de esgoto. Vómito de palavras, purgação do idioma infecto, mastigado, cuspido e mastigado de novo por dentes cariados, náusea onde nadam restos de todos os alimentos que nos deram na escola e todos os que, isolados ou em companhia, mastigamos desde há séculos. Devolvo todas as palavras, todas as crenças, toda essa comida fria com que desde o princípio nos sufocam.
Houve um tempo em que me perguntava: onde está o mal?, onde se iniciou a infecção, na palavra ou na coisa? Hoje sonho uma linguagem de lâminas e bicos, de ácidos e chamas. Uma linguagem chicoteante. Para execrar, exasperar, excomungar, expulsar, exherdar, expelir, exturbar, excorpiar, expurgar, excoriar, expilar, exprimir, expectorar, exulcerar, excrementar (os sacramentos), extorsionar, extenuar (o silêncio), expiar.
Uma linguagem de cortar a respiração. Rasante, contundente, cortante. Um exército de sabres. Uma linguagem de perfeito aço, de relâmpagos afiados, de esdrúxulos e agudos, incansáveis, reluzentes, metódicas navalhas. Uma linguagem guilhotina. Uma dentadura trituradora, que desfaça numa papa o eutunósvóseles. Um vento de lâminas que rasgue e desagregue e desfaça e desonre as famílias, os templos, as bibliotecas, as prisões, os bordeis, os colégios, os manicómios, as fábricas, as academias, os tribunais, os bancos, as amizades, as tabernas, a esperança, a revolução, a caridade, a justiça, as crenças, os erros, as verdades, a fé.

- Octavio Paz
in Águila o sol?

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