O violino mente, o andar dos criados é gingão.
Nem a palavra nos diálogos trocados
nos consegue animar. Somos escutados.
Transformámo-nos em privilegiados;
temos os joelhos bem ginasticados.
Da noite, a dança é a única experiência:
nem vemos quem nos consome a existência.
O pedinte junto ao ventoso portal,
nem o olhamos, a imagem é banal;
mas vemos sempre os seus reflexos obstinados
no nosso espelho: vazios, petrificados!
... Cai um cavalo, a rua absorve sangue enegrecido
e ninguém tem coragem para, decidido,
dar com a pistola um fim à dor brutal.
Este fugir à náusea, de que serve afinal?
Cairão esta noite ainda mil
daqueles que, pulso forte e ar viril,
construíram uma vida. Com que intento
existimos ainda? Lutamos contra o vento.
Um Chimborazo de papel é o que acumulamos,
que não armas, e só quatro é que aqui estamos –
Contra este tempo ainda não somos milhões.
Cresce a torrente da miséria em extremas proporções.
Até que se erga em ponte uma muralha viva –:
lançai pelas ruas a vossa voz altiva,
em todas as tribunas lenço rubro na mão,
e em todas as gargantas esta maldição
há-de ecoar: «Morte à ordem antiga!»
... oiço apenas trautear uma cantiga.
Gelou-se o coração no nosso agir.
De cornos tortos, o novo dia começa a surgir.
- Paul Zech
(tradução de João Barrento)
in Expressionismo Alemão (Antologia Poética), Ática
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