segunda-feira, outubro 26, 2009

Histórias de botas para rapazes

Há uma primeira história, uma que o meu pai nos contava algumas vezes, à mesa, em ocasiões especiais. Passou-se com ele e com a sua mãe, nossa avó, no meio do Alentejo, em meados dos anos 50 do século passado. Portanto, há pouco mais de 50 anos. É uma história de Inverno:
A minha avó é uma camponesa sujeita ao trabalho duro do campo e o meu pai acompanha-a pois, feita a 4ª classe, já não anda na escola. Tem 10 ou 11 anos, está descalço e, enterrado na lama, queixa-se, imagino que a bater os dentes, de frio nos pés. A minha avó gostaria muito de lhe comprar umas botas, mas o dinheiro é escasso, não chega para quase nada. Por isso, e porque as queixas devem ter continuado, dias depois, na feira, a minha avó comprou um boné ao meu pai, um daqueles que tinham partes laterais para proteger as orelhas. Descalço, mas com um boné que lhe aquece a cabeça e as orelhas, o meu pai atravessa todo esse Inverno guardando para si as suas queixas.
De seguida, há uma segunda história, agora contada por mim. Muitos anos depois, tenho talvez 13 anos e o meu pai compra-me umas botas. Pele dura, sola alta de borracha, umas botas grosseiras, baratas, fora de moda, capazes de durar todos os Invernos da minha adolescência. Não tenho outras, se quero andar com os pés secos não posso deixar de as usar. São, claro, botas quentes, mas humilhantes: de rústico, boas para trabalhar na terra, mas nós vivemos na margem sul da capital, não no campo. Com as devidas diferenças, lembro bem "a agonia desses momentos, a raiva, o sofrimento, o desespero", isso tudo de que fala Peter Stallybrass em "A vida social das coisas" e, particularmente, quando se refere ao par de sapatos que os pais de Jen White, a mulher de Allon White, o seu melhor amigo, lhe compraram para levar à escola: "Sapatos práticos, bons, mas com os quais você tinha vergonha de ser visto."
Por fim, uma terceira história. O meu filho tem 12 anos e, apesar de previsível, o seu crescimento apanhou-nos a todos de surpresa. Por isso os dois pares de botas que ele tem já não lhe servem. Também de surpresa, depois de dias de calor intenso e fora de época, chegaram o frio, o mau tempo, a chuva, e ele não tem calçado apropriado para sair de manhã. Dou-lhe, então, um dos meus dois pares, que ele calça com evidente satisfação: ficam-lhe bem e são confortáveis. Agora, sim, está preparado para a invernia. Mais logo, quando regressar, à mesa, hei-de contar-lhe três histórias de Inverno sobre botas.

1 comentário:

Cristina Gomes da Silva disse...

Tão terno, apesar de todas as adversidades relatadas. Cá por casa o problema tambem chegou com a chuva, a diferença é que são 12 anos femininos e os meus sapatos já não lhe servem. Boa semana :)