quarta-feira, maio 20, 2009

Victims of the dance

Corria o Inverno de oitenta e seis, corria
atrás de nós, que aprendíamos aos poucos
o prestígio do estilo, o fervor da negação.
Os livros começavam a doer, percutiam
com pedras no estômago, cavavam
grandes fomes na carência da recusa.

Que sentimentos eram esses, quase novos,
quando as vozes já rodavam na paleta
mais sombria, do azul para o lilás,
terminando no negrume do vivido,
no mutismo que acendíamos em charros?
Que promessas nos lesavam tão depressa?

Sem emprego para o sonho, nas traseiras
do deserto, a custo decifrávamos a arte
de sorrir. Confundíamos beleza com justiça,
segurança com sarcasmo, tolamente,
no tempo em que falávamos ao frio,
os pés contra a parede do mosteiro.

Nos livros presumíamos a sorte de um esteio
singular, barricadas de papel contra canhões
de frases frias: a narcose do sucesso,
o redondo banditismo da razão, a pujança
numerária, pessoal, dos tubarões,
o respeito dos canalhas e dos parvos.

Hoje, se nos vemos, ocultamos a vergonha
no sorriso do bebé, perguntamos se já diz
o que é suposto com dois anos de infortúnio:
aquele «puta que pariu a minha vida»,
que nós já só usamos contra colectores
de impostos, pisadelas, futebóis.

- José Miguel Silva

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