Resta-nos talvez
uma árvore na encosta que possamos rever
diariamente; resta-nos a rua de ontem
e a fidelidade continuada de um hábito,
que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.
Rainer Maria Rilke
Vários desastres sinfónicos na rádio
e algumas horas de má televisão
apressam a manhã, e aos pés da cama
chega uma luz purulenta que sobe a colcha
entre curtos, irrespiráveis golpes,
com a cidade ao fundo, soluçando
de perto.
Adormeces à distância, com a cabeça
balançando na margem de algum rio –
o primeiro sonho apanhado à mão,
ainda com vida. Perdes-te de lá
para cá e aos poucos abeira-se,
irreconhecível, o mês de Junho
e vê como engordaste, quebrado
em silêncios, nessa palidez fria, feia.
A testa prolongada, o castanho claro
do cabelo mais e mais disperso,
os olhos, duas úlceras e no fim a boca
estremecendo – mais uma ferida
que abriste vezes demais.
Por esta altura surge
alguém, um leitor sem nada que fazer,
com vários meses, talvez anos de atraso,
e espera que te expliques melhor.
Encontra-te junto ao muro do liceu,
mas só tu voltas a ter ranho
nas mangas da camisola, enquanto
atiras a fruta caída de volta aos ramos,
às árvores – fazes pontaria aos pássaros e
por uma vez acertas em cheio.
Depois é o coração que, estupidamente,
também regressa e dói
como uma antiga queimadura
– devorando-se.
Juntaste o que podias, sombras sem idade,
mais umas sensações que só por breves
instantes se deixam entender,
fugindo-te depois durante
semanas a fio. Tantas coisas que
não se explicam. Atalhos que sabes
ainda de cor, a parte de trás das casas
e os quintais onde o vento parou. Os livros
de velhos, às vezes mortos amigos,
intrigados ainda, depois de todo
este tempo.
Esse eco ou rebentação vinda
de uns versos seus, teus agora
também: encantos e prejuízos, desejos
como anúncios que não chegaram
aos jornais. Um corpo sempre chamando
outro. A mulher que ficou de trazer o mar
rompendo-lhe entre as pernas.
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