domingo, abril 05, 2009

Pouco exótico ou distante

Andámos como estranhos e depois dessa azia
que se arrastou durante dias, o teu corpo, cantabile
uma vez mais, pareceu-me uma boa ideia,
tão boa pelo menos como
qualquer outro entusiasmo que me
levantasse a voz, a necessidade de chamar-te
mais algumas vezes.

Por entre
as suspeitas que te sulcavam a testa, vi que
ao mesmo tempo coravas, tinhas o rosto inteiro
tragicamente enquadrado na minha disposição,
sei lá se sexual. E a poucos minutos da decepção,
vi-o recuperar a beleza clássica
que me levara antes, ao longo de semanas,
a um esforço para dominar a estrutura dos sonetos,
sem grande sucesso (adiante-se), o suficiente porém,
para que o teu nome ainda rimasse com o de
uma perspectiva exótica e distante –
orgasmos por cima do arco-íris e movimentos
de nuvens formando à nossa vontade
legiões que vinham jurar a vida aos pés do amor.

Fiz por recuperar esse abuso lento,
um lume aguentado enquanto
nos aliava. Depois, endividado, houve
uma ou duas perguntas a que respondi
e o pouco que disse chegou-te
para a desaceleração cardíaca. Fugindo
dos insultos em que desembocaríamos logo depois,
citei meio a despropósito (não será sempre
assim?) um poeta dos que sempre achei
mais difíceis:
De que amor falamos nós?

Não sei se era essa a intenção, mas serviu
para o silêncio. Um corte ácido
a que entregaste o melhor de ti
para que enfim eu me arrependesse
de usar frases que não soube inventar.

Fiquei algum tempo a coser-me
nas minhas quase heróicas desistências, versos
desses que evitamos escrever e que talvez por isso
acabam sempre por voltar. (Hoje o que não sei
é como acabar com isto, deixar de vir aqui
para execrar o cadáver do tempo
que passámos juntos. Que se lixe,
isto tem que servir para alguma coisa.)
Enquanto procuravas uma meia de liga
murmurando desastres entredentes,
eu procurava mais nervoso ainda
um lugar público onde pudéssemos levar
o resto da tarde.

Fomos só passear e, subindo a Calçada
do Combro, metemos numa paralela e a uns metros,
diante de nós, ficou um relvado de boca aberta
em língua estrangeira para o miradouro
de Santa Catarina. Entre tantos a provisão de sol,
as litrosas e uma caixa de morangos que passava
de mão em mão, um pouco como a alegria –
esse tráfico que por alguma razão
nos surpreendeu.

Deves ter-me visto perder os olhos
para uma gaja num vestido azul – não percebi
se francesa se italiana, lembro-me que no pulso
tinha um relógio de homem, antigo
e parado, onde me foste buscar a atenção
para a levar a uma criança com um fio de cuspo
pendurado a ameaçar um ninho de formigas.
Em termos infantis, sempre conseguimos
ter alguns gostos e desgostos em comum,
e de uma lembrança para outra,
lá desembrulhámos uma conversa.

Algumas horas mais tarde, refugiados num recuo
quase inanimados, bebíamos no escuro mas foi
uma canção que como um soro
nos enobreceu o sangue. Embalaste
entre os ombros uma espécie de glória,
um encanto miserável que quis acompanhar,
e menti (ou julguei mentir) fazendo eco
do refrão: you can do better than me, but I
can’t do better than you…

E foi amanhecendo no meio
do nosso silêncio quando ainda sem sono
vogámos em direcção ao apartamento
passando pelo blockbuster e alugando
uns filmes de terror série B.
Acho que era a minha forma de pedir-te
desculpa, dando a entender
que podíamos esperar o sono abraçados,
fingindo mais ou menos cada susto
e um medo por tudo o que ainda
tínhamos a perder. E perdemos.

1 comentário:

Mi disse...

gosto disto... gosto do espaço!