sexta-feira, março 13, 2009

(excerto final de A RELIGIÃO DO MEU TEMPO)


Aqui, entre as casas, as praças, as ruas
abjectas, da cidade onde agora reina
esse novo espírito que ofende

a alma a cada instante, – com catedrais,
igrejas, monumentos mudos no desuso
angustioso que é usual em homens

que não crêem – recuso-me
de futuro a viver. Já nada resta
a não ser natureza – onde aliás só se descobre

o fascínio da morte – nada há,
neste mundo humano, que eu possa amar.
Tudo me faz sofrer: esta gente

servil que obedece a cada chamada
que aos seus senhores apraz fazer,
adoptando, sem suspeita, os mais infames

hábitos das vítimas predestinadas;
o cinzento das roupas pelas ruas cinzentas;
os gestos cinzentos em que parece gravada

a cumplicidade com o mal que a invade;
a sua agitação em redor de um bem-estar
ilusório, como um rebanho em redor de uma seara:

a sua regularidade de maré que alterna
multidões e desertos pelas ruas,
em fluxos e refluxos obcecados

e anónimos de necessidades rançosas;
os ajuntamentos na tristeza dos bares e dos cinemas,
o coração que triste se resigna aos factos...

E em torno deste interno domínio
da vulgaridade, a cidade esboroa-se
amontoando-se brasileira ou levantina,

como a erupção de uma lepra,
deliciando-se, ébria de morte, com os restos
das épocas humanas, cristãs ou gregas,

e alinhando vendavais de casarios,
pauis de lotes cor de bílis ou de vómito,
sem um só sentimento, de angústia ou de paz;

destrói a suavidade das paredes, os cotovelos
poéticos dos becos em redor dos jardins interiores,
o que resta de moradias cor de pedra-pomes

ou de rato, onde figueiras e chicórias hibernam
satisfeitas, os lajedos estriados de erva
rala, os bairros que pareciam eternos

nos seus traços quase humanos
de pedra cinzenta ou pálido tijolo:
tudo destrói a torrente grosseira

dos piedosos possuidores de lotes:
corações de cães, olhos profanadores,
torpes discípulos de um Jesus corrompido,

nos salões vaticanos, nos oratórios,
nas antecâmaras dos ministros, nos púlpitos,
escorados por um povo de criados.

Que longe está agora de ouvir
o tumulto puro do seu coração,
e da paisagem de prímulas e arbustos

do materno Friul, o doce-ardente
Rouxinol da Igreja Católica!
O seu sacrílego mas religioso amor

é apenas memória, arte retórica:
mas quem morreu foi ele, não eu, de raiva,
amor desiludido, angústia espasmódica

por uma tradição que morre cada dia
às mãos de quem se diz seu defensor;
e com ele morreu uma terra propícia

à luz religiosa, na limpidez
campestre de campos e casais;
morreu uma mãe que é inocência e ternura

inalteráveis, num tempo só de mal;
e morreu uma época da nossa existência,
que, num mundo destinado a humilhar,

foi luz moral e resistência.

- Pier Paolo Pasolini

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